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Cidadania: Político não é senhor: é servidor do povo A democracia se enfraquece quando representantes se comportam como donos do poder e cidadãos esquecem que são os verdadeiros titulares do mandato popular. Por Harley Ximenes

Cidadania: Político não é senhor: é servidor do povo

Relação entre representantes eleitos e cidadãos deve ser pautada pelo princípio de que o poder político em uma democracia pertence ao povo e o mandato público existe para servir à sociedade. Foto: Imagem ilustrativa feita com auxílio de IA

22 de agosto de 2026 – Recentemente, ao visitar o comitê de um determinado político, deparei-me com uma cena que me causou profundo incômodo. Muitas pessoas aguardavam durante horas pela oportunidade de receber alguns poucos minutos de atenção de um deputado. Observei aquela movimentação por algum tempo e saí de lá perplexo.

Não parecia simplesmente um encontro entre um representante e os cidadãos que ele deveria representar. Havia uma espécie de ritual de reverência, quase uma idolatria. Pessoas esperando, bajulando e disputando alguns instantes de atenção. Um verdadeiro “beija-mão” político. Aquilo me levou a uma pergunta que considero necessária: afinal, quem deveria servir a quem?

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Todo o poder emana do povo

A Constituição brasileira responde de maneira absolutamente clara. Logo em seu primeiro artigo, estabelece que “todo o poder emana do povo”. Essa talvez seja uma das afirmações mais importantes — e, paradoxalmente, mais esquecidas — da nossa República.

O poder não pertence ao presidente, ao governador, ao prefeito, ao senador, ao deputado ou ao vereador. O poder pertence ao povo. O político apenas recebe, por determinado período, autorização para exercê-lo em nome da sociedade.

Mandato não é propriedade. Cargo não é título de nobreza. Eleição não transforma ninguém em pessoa superior. O político é, antes de qualquer coisa, um servidor da sociedade.

Por isso, aquela fila me pareceu tão simbolicamente perturbadora. O verdadeiro titular do poder estava esperando horas para receber alguns minutos daquele a quem havia temporariamente emprestado esse mesmo poder.

Algo está profundamente invertido nessa relação. O cidadão passa a comportar-se como súdito; o representante começa a sentir-se senhor. O eleitor pede audiência, pede atenção, pede ajuda, agradece por ser recebido e, não raramente, sente-se privilegiado simplesmente porque o político lhe concedeu alguns minutos.

Mas concedeu o quê? Ouvir a população não deveria ser um favor. É parte da própria razão de existir de um mandato.

A cultura da reverência ao poder

Talvez seja necessário reconhecer algo ainda mais desconfortável: a soberba de determinados políticos não nasce sozinha. Nós também ajudamos a construí-la.

Durante décadas, alimentamos uma cultura de bajulação ao poder. Chamamos políticos de “meu deputado”, “meu prefeito”, “meu senador”, cercamos determinadas figuras públicas de aduladores e transformamos atos inerentes ao mandato em demonstrações extraordinárias de generosidade.

Talvez tenhamos criado políticos que se comportam como senhores porque ensinamos nossos representantes a serem tratados como senhores — e, pior, ensinamos cidadãos livres a se comportarem como súditos.

Existe também uma perigosa cultura do favor. O parlamentar consegue uma obra e alguém diz que foi “um presente” para a comunidade. Consegue recursos e aparece como benfeitor. Intermedeia uma demanda legítima da população e recebe agradecimentos como se estivesse retirando dinheiro do próprio bolso.

Não está.

O dinheiro é público. A estrutura é pública. O mandato é público. E o salário do político também é pago pelo povo.

Trabalhar, fiscalizar, legislar, buscar recursos, receber cidadãos e defender os interesses da população não são favores prestados pelo agente político. São obrigações decorrentes da função que livremente decidiu exercer.

Autoridade não significa superioridade

É nesse ambiente que até a palavra “autoridade” precisa ser compreendida corretamente. O cargo possui autoridade institucional; isso não significa que seu ocupante seja humanamente superior aos demais cidadãos.

Respeitar a autoridade do cargo é indispensável à democracia. Curvar-se pessoalmente diante daquele que temporariamente o ocupa é algo completamente diferente.

Da mesma forma, o tratamento de “Excelência” jamais deveria alimentar a ideia de superioridade pessoal. Excelente deve ser o exercício do mandato, e não a vaidade daquele que o recebeu.

A República substituiu súditos por cidadãos. Não faz sentido continuarmos reproduzindo comportamentos próprios de uma corte.

Da campanha às salas de espera

Existe uma cena especialmente reveladora da nossa política. Durante a campanha, o candidato procura o povo. Entra nas casas, percorre mercados, visita comunidades, abraça, aperta mãos, tira fotografias, fornece seu telefone, escuta pacientemente e promete que sua porta estará sempre aberta.

Depois da eleição, em muitos casos, acontece uma curiosa transformação: agora é o povo que precisa procurar o político.

Surgem assessores, intermediários, agendas impossíveis, salas de espera e horas de expectativa para alguns minutos de conversa. Aquele que pedia uma oportunidade passa a conceder audiências.

Talvez poucas imagens revelem tão bem como conseguimos inverter a essência da representação democrática.

O eleitor também precisa mudar

Mas seria intelectualmente cômodo colocar toda a responsabilidade sobre os políticos. Nós, eleitores, também precisamos mudar.

Precisamos parar de pedir favores quando estamos reivindicando direitos. Parar de agradecer excessivamente pelo cumprimento de obrigações públicas. Parar de tratar representantes como celebridades, salvadores ou padrinhos.

E, principalmente, abandonar a ideia de que ter acesso pessoal a determinado político constitui algum tipo de privilégio social.

Democracia exige políticos conscientes de seus limites, mas também exige cidadãos conscientes de sua própria grandeza. Quem conhece a força de sua cidadania não precisa ajoelhar-se simbolicamente diante de quem recebeu seu voto.

Servir ao povo deve ser motivo de orgulho

A política é uma das atividades mais importantes de uma sociedade democrática e não deve ser desprezada. Existem inúmeros homens e mulheres que exercem mandatos com dignidade, simplicidade e verdadeira compreensão do serviço público.

Minha crítica não é contra a política. É justamente em defesa de sua grandeza.

Servir ao povo deveria ser motivo de orgulho. O problema começa quando o mandato deixa de ser compreendido como uma missão temporária e passa a ser experimentado como posição social, instrumento de vaidade, privilégio ou poder pessoal.

Quanto maior o cargo, maior deveria ser a consciência de que aquele poder não lhe pertence.

Naquele dia, saí daquele comitê pensando que havia algo profundamente errado naquela fila. Não porque cidadãos desejassem conversar com seu representante — isso é democracia —, mas porque muitos pareciam esperar um favor de alguém que deveria estar ali justamente para servi-los.

Talvez precisemos reaprender uma das ideias mais simples da República: não somos súditos e políticos não são nossos senhores.

Presidente, governador, prefeito, senador, deputado ou vereador não está acima do cidadão. Está a seu serviço. Governos passam, mandatos terminam e cargos são devolvidos. O povo permanece.

A democracia começa a adoecer quando o representante esquece que é servidor e o cidadão esquece que é o verdadeiro titular do poder. Afinal, os políticos existem para servir ao povo — e jamais para serem servidos por ele.


Harley Ximenes é advogado. Especialista em Direito do Trabalho, Empresarial e Sindical.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para portalterradaluz.


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Tags: política, democracia, cidadania, poder público, políticos, representação política, mandato político, serviço público, eleitor, direitos do cidadão, participação popular, Constituição Federal, poder popular, sociedade, República, responsabilidade política, representantes eleitos, ética na política, cultura política, democracia brasileira, opinião, artigo de opinião, Harley Ximenes, Portal Terra da Luz

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Editor Responsável

O editor responsável pelo Portal Terra da Luz é o jornalista Hermann Hesse, profissional reconhecido pela atuação na imprensa cearense desde 1990. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou durante quase 20 anos na TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo, como repórter, produtor, editor, apresentador, editor-chefe do jornal mais importante e de maior audiência do Ceará, o CETV. Em 2011, assumiu a Coordenadoria de Comunicação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e, dois anos depois, foi Coordenador de Comunicação Institucional da Prefeitura de Fortaleza. Em janeiro de 2019, assumiu a direção de Jornalismo do Grupo Cidade de Comunicação, onde atuou por 2 anos e meio. No dia 12 julho de 2021 colocou no ar a primeira notícia e, desde então, é o responsável por todos os conteúdos publicados no Portal Terra da Luz. Entre agosto de 2022 e agosto de 2025 atuou, paralelamente, como diretor de Jornalismo da Band Ceará, emissora ligada diretamente à cabeça de rede, em São Paulo.

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