

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou aos Estados Unidos em meio à campanha para as eleições legislativas americanas. Especialistas avaliam que uma eventual maioria democrata no Congresso poderá investigar o apoio recebido pelo parlamentar, mas não terá competência para determinar diretamente sua deportação | Foto: Eva Marie Uzcategui/Reuters
31 de outubro de 2026 – A possibilidade de o Partido Democrata conquistar a maioria no Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato, previstas para novembro, poderá trazer novos desdobramentos para a permanência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em território americano. Especialistas em relações internacionais avaliam que uma eventual vitória da oposição ao presidente Donald Trump permitiria a abertura de investigações e o aumento da pressão política, mas não garantiria a deportação do parlamentar brasileiro.
Flávio chegou aos Estados Unidos após deixar o Brasil, apesar de uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que restringia sua saída do país. A viagem provocou questionamentos sobre a eventual participação de autoridades americanas na concessão de vistos e no deslocamento do senador e de sua família.
Nas redes sociais, brasileiros passaram a pedir a políticos democratas que defendam a retirada de Flávio dos Estados Unidos. A hashtag #DeportTheBolsonaros esteve entre as mais compartilhadas no X, no Brasil, na sexta-feira (30).
Apesar da mobilização, especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o Congresso americano não possui competência para determinar diretamente a deportação de um estrangeiro.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<
As decisões relacionadas à permanência de estrangeiros nos Estados Unidos são de responsabilidade de órgãos do Poder Executivo, entre eles o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, e o Departamento de Segurança Interna (DHS).
Mesmo que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes ou no Senado, a mudança na composição do Legislativo não permitiria determinar automaticamente a retirada de Flávio Bolsonaro do país.
Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), destaca os limites dessa atuação.
“Não se pode pensar que o Congresso tem o poder de deportar alguém. Isso não está na sua incumbência, não está na sua jurisdição”, explica.
O professor Vitelio Brustolin, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que a concessão ou revogação de vistos é uma atribuição do Departamento de Estado.
Segundo o especialista, existem diferenças jurídicas entre revogação de visto, deportação e expulsão.
O cancelamento de um visto não implica, necessariamente, a saída imediata do estrangeiro. A deportação depende de procedimentos previstos na legislação migratória americana, enquanto outras medidas de retirada compulsória seguem requisitos legais específicos.
Embora não tenham poder para determinar a deportação de Flávio Bolsonaro, os parlamentares democratas poderão abrir investigações para apurar se houve favorecimento por parte de integrantes do governo americano.
Entre os pontos que poderiam ser examinados estão a concessão de vistos, a autorização de entrada no país e a eventual participação de autoridades dos Estados Unidos na viagem do senador.
Vitelio Brustolin explica que uma investigação parlamentar não dependeria necessariamente de maioria nas duas Casas do Congresso.
“Para abrir uma investigação parlamentar basta a Câmara dos Deputados. Então não seria necessário conquistar simultaneamente maioria no Senado”, afirma.
Uma das possibilidades seria convocar o secretário de Estado, Marco Rubio, para prestar esclarecimentos sobre os procedimentos adotados pelas autoridades americanas.
Roberto Uebel avalia que uma investigação poderia ampliar o desgaste político da administração Trump e influenciar decisões futuras sobre a situação migratória de Flávio.
Entretanto, mesmo que fossem identificadas irregularidades, o Congresso não poderia determinar diretamente a revogação do visto ou a saída do senador dos Estados Unidos.
As investigações parlamentares também poderão enfrentar obstáculos relacionados ao acesso a informações migratórias e comunicações internas do governo americano.
Segundo Vitelio Brustolin, documentos sobre vistos e determinadas informações do Poder Executivo podem estar sujeitos a regras de confidencialidade.
“Tem também uma espécie de privilégio do Poder Executivo. A Casa Branca pode invocar privilégios e objeções legais para reter determinadas comunicações presidenciais”, explica.
O professor ressalta, contudo, que essa prerrogativa não representa proteção absoluta contra investigações.
“Isso não cria imunidade absoluta contra investigações, mas pode provocar disputas sobre a extensão do acesso a documentos e testemunhos.”
Dessa forma, uma eventual investigação sobre a entrada de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos poderia envolver disputas jurídicas e institucionais entre o Congresso e o governo Trump.
A discussão sobre a permanência do senador brasileiro ganhou dimensão política nos Estados Unidos após um grupo de parlamentares democratas encaminhar uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio.
O documento, enviado na noite de quinta-feira (29), foi obtido pela jornalista Raquel Krahenbuhl, da TV Globo.
Segundo o site americano Politico, a carta foi assinada por 25 integrantes democratas da Câmara dos Representantes, liderados pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus.
Entre os signatários estão parlamentares ligados ao Comitê de Relações Exteriores da Câmara, que também criticou publicamente a entrada de Flávio Bolsonaro no país.
O documento questiona se houve participação de órgãos americanos na viagem do senador, considerando a existência de uma restrição judicial brasileira à sua saída.
“A questão central é simples: o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ou qualquer outra agência do governo americano ajudou o senador Bolsonaro a viajar para os Estados Unidos ou a entrar no país, apesar da suposta restrição judicial brasileira à sua saída?”, afirma a carta.
O questionamento busca esclarecer se Flávio e seus familiares receberam algum tratamento excepcional durante os procedimentos de viagem e imigração.
Apesar da possibilidade de investigação, especialistas consideram pouco provável que a situação de Flávio Bolsonaro esteja entre os principais temas da agenda democrata.
Tomaz Paoliello, coordenador do mestrado em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), avalia que uma eventual maioria democrata poderá pressionar instituições do Executivo, mas dificilmente concentrará esforços no caso brasileiro.
“Um Congresso poderoso, a gente sabe, conhecendo a história dos EUA, consegue fazer pressão sobre as instituições burocráticas”, explica.
“Particularmente, no caso do Flávio Bolsonaro, não é uma coisa tão importante — ou pelo menos eles não têm dado muita importância”, afirma.
O pesquisador considera que as eleições legislativas americanas estão mais concentradas em assuntos internos, especialmente economia, custo de vida e políticas públicas.
“Eu acho que os democratas, nesse momento, poderiam pegar isso como uma causa se eles sentissem que isso pode impactar nas eleições”, avalia.
“Mas esse tema especificamente de política externa não tem sido muito forte”, acrescenta.
As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, renovarão todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e aproximadamente um terço do Senado americano.
As pesquisas e projeções divulgadas em outubro apontam a possibilidade de avanço do Partido Democrata, atualmente na oposição ao presidente Donald Trump.
Caso conquistem a maioria na Câmara, os democratas poderão dificultar a aprovação de projetos legislativos e propostas orçamentárias do governo republicano, além de ampliar a fiscalização sobre o Executivo.
Segundo Tomaz Paoliello, a oposição também deverá buscar apresentar propostas relacionadas às necessidades da população americana, preparando o cenário político para a eleição presidencial de 2028.
Roberto Uebel apresenta outra avaliação. Para ele, uma das prioridades democratas poderá ser a abertura de um processo de impeachment contra Trump.
“A dúvida é se eles querem destituí-lo de fato ou arrastar um longo processo de impeachment para desgastar ao máximo o presidente Trump e os republicanos, olhando já para as eleições presidenciais de 2028”, afirma.
Paoliello discorda dessa perspectiva, lembrando que as tentativas anteriores de afastamento de Trump não produziram os resultados políticos esperados pelos democratas.
Durante seu primeiro mandato, Trump enfrentou dois processos de impeachment.
O primeiro, em 2019, envolveu acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso, após pressões sobre a Ucrânia para investigar Joe Biden.
O segundo ocorreu em 2021, após a invasão do Capitólio por apoiadores do republicano.
Nos dois casos, a Câmara aprovou o impeachment, mas Trump foi absolvido pelo Senado.
As projeções eleitorais divulgadas em outubro apresentam diferentes cenários para a composição do Senado americano após as eleições de novembro.
O Center for Politics, da Universidade da Virgínia, divulgou em 14 de outubro uma previsão de 49 cadeiras para os democratas, 46 para os republicanos e cinco disputas indefinidas.
Já a plataforma Race to the WH, do jornalista político Logan Phillips, projetou em 22 de outubro a conquista de 52 ou 53 cadeiras pelos democratas, contra 47 ou 48 dos republicanos.
Nesse levantamento, a probabilidade de vitória democrata foi estimada em 72,5%.
O site 270toWin apresentou um cenário mais equilibrado, com 48 cadeiras para cada partido e quatro disputas indefinidas.
| Projeção para o Senado | Democratas | Republicanos | Indefinidas |
|---|---|---|---|
| Center for Politics | 49 | 46 | 5 |
| Race to the WH | 52 a 53 | 47 a 48 | — |
| 270toWin | 48 | 48 | 4 |
Os números representam projeções eleitorais divulgadas em outubro, e não resultados oficiais.
Na Câmara dos Representantes, as pesquisas indicam vantagem mais consistente para o Partido Democrata.
Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 19 de outubro apontou que 47% dos eleitores pretendiam votar em candidatos democratas, enquanto 35% manifestaram preferência por republicanos.
O Center for Politics, em atualização de 20 de outubro, projetou 223 cadeiras democratas, 200 republicanas e 12 disputas indefinidas.
A plataforma Race to the WH estimou 236 cadeiras para os democratas e 199 para os republicanos, atribuindo 92,2% de probabilidade à conquista da maioria democrata na Câmara.
Já o 270toWin apresentou previsão de 220 cadeiras democratas, 200 republicanas e 15 indefinidas.
| Projeção para a Câmara | Democratas | Republicanos | Indefinidas |
|---|---|---|---|
| Center for Politics | 223 | 200 | 12 |
| Race to the WH | 236 | 199 | — |
| 270toWin | 220 | 200 | 15 |
Mesmo diante de uma eventual vitória democrata nas eleições legislativas, a situação migratória de Flávio Bolsonaro continuará submetida às autoridades competentes dos Estados Unidos.
Os especialistas destacam que investigações parlamentares poderão revelar informações sobre a viagem, questionar a atuação de integrantes do governo Trump e ampliar o debate político.
Entretanto, a eventual revogação de vistos ou adoção de medidas migratórias dependerá de procedimentos legais e de decisões das autoridades americanas responsáveis.
Assim, embora uma nova composição do Congresso possa aumentar a pressão sobre a Casa Branca, a deportação de Flávio Bolsonaro não seria uma consequência automática do resultado eleitoral.
Leia também | Senado votará PEC na terça-feira (3)
Tags: Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, Donald Trump, Partido Democrata, Partido Republicano, Eleições nos Estados Unidos, Eleições americanas 2026, Midterms 2026, Congresso americano, Câmara dos Representantes, Senado americano, Deportação, Imigração americana, Revogação de visto, Marco Rubio, Departamento de Estado, Departamento de Segurança Interna, DHS, Governo Trump, Casa Branca, Brasileiros nos Estados Unidos, Relações Brasil Estados Unidos, Relações internacionais, Diplomacia, Política internacional, Política americana, Política brasileira, Supremo Tribunal Federal, STF, Investigação parlamentar, Sydney Kamlager-Dove, Dina Titus, Isaiah Martin, Roberto Uebel, Vitelio Brustolin, Tomaz Paoliello, ESPM, Universidade Federal Fluminense, PUC-SP, Reuters, Politico, Pesquisas eleitorais, Projeções eleitorais, Impeachment, Eleições 2028, Vistos americanos, Fiscalização parlamentar, Flórida, Miami, Brasil, Estados Unidos, Portal Terra Da Luz
A Faculdade CDL participa da Black Friday 2026 com descontos de até 70% em cursos de graduação e 50% em pós-graduação. A campanha acontece de 1º a 30 de novembro e oferece oportunidades de qualificação profissional em cursos presenciais na instituição, localizada no Centro de Fortaleza | Foto: Acervo/Faculdade CDL