
Paisagem marcada pela estiagem no Semiárido cearense evidencia os desafios enfrentados pelos agricultores familiares diante do avanço da seca e dos riscos associados ao fenômeno El Niño. Foto: Ilustração/Portal Terra da Luz
29 de outubro de 2026 – O Semiárido cearense atravessa um momento de extremo alerta climático. A seca já avança sobre cerca de 90% do território estadual, comprometendo a paisagem, a produção agrícola e a economia rural. O cenário ganha contornos de urgência diante das projeções meteorológicas globais, que apontam para um El Niño de intensidade excepcional, com potencial para superar o evento de 2015-2016.
As previsões indicam uma forte tendência de agravamento das condições climáticas, com redução das pastagens e riscos de escassez hídrica até, pelo menos, abril de 2027. Trata-se de um verdadeiro teste de fogo para o Ceará. Diante de uma crise dessa magnitude, as velhas respostas do Estado, baseadas no assistencialismo reativo, em carros-pipa tardios e em reuniões de gabinete, revelam-se insuficientes. Esse é o retrato da crise que se avizinha: um choque entre natureza e gestão pública.
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Um El Niño de proporções excepcionais pode produzir consequências conhecidas: quebra de safras, morte de rebanhos, esvaziamento de açudes e desespero entre os agricultores familiares. Quando grande parte do Ceará enfrenta a seca e as projeções apontam para o agravamento do cenário, o modelo tradicional de assistência revela suas fragilidades.
Isso ocorre porque, historicamente, muitas políticas públicas tratam o sertanejo como alguém dependente de cuidados e favores, e não como um produtor dotado de conhecimentos, capacidades e condições para desenvolver sua própria resiliência.
Enfrentar um El Niño que poderá figurar entre os mais intensos da história observacional exige abandonar a paralisia do chamado “assembleísmo” e priorizar ações técnicas diretas. Se o Estado permanecer limitado às políticas paliativas, o avanço da seca poderá deixar um rastro profundo de êxodo rural, empobrecimento e desestruturação das atividades produtivas.
Diante do caráter excepcional desse fenômeno climático, estados e municípios brasileiros precisam elaborar e ativar planos de contingência, além de promover treinamentos emergenciais capazes de reduzir os impactos sobre a infraestrutura, os recursos hídricos e a agricultura.
A combinação de um El Niño excepcional com o aquecimento global também amplia as preocupações em relação a 2027, que poderá apresentar temperaturas extremamente elevadas, com consequências para a segurança hídrica, alimentar e econômica das populações mais vulneráveis.
Por outro lado, considerando que o necessário dever de casa não foi realizado antecipadamente, como seria conveniente para enfrentar eventos climáticos extremos, ainda há oportunidade de corrigir os rumos.
A implementação capilarizada dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), inspirados nos princípios do Reciprocidalismo, representa um caminho para transformar a crise climática em um marco de transição na relação entre o Estado e o agricultor familiar.
Essa mudança exige substituir definitivamente a tutela assistencialista pela soberania tecnológica do produtor rural, garantindo-lhe acesso ao conhecimento, à inovação e às ferramentas necessárias para conviver com as adversidades climáticas.
Mais do que responder aos efeitos imediatos da seca, é preciso construir uma política permanente de fortalecimento das capacidades produtivas do Semiárido, reconhecendo o agricultor como protagonista das soluções.
A terra é seca, mas a inteligência para vencer suas limitações já existe. Falta apenas o alinhamento institucional necessário para disseminá-la e transformá-la em oportunidades concretas de desenvolvimento e resistência às mudanças climáticas.
Ph.D. Nizomar Falcão
Engenheiro Agrônomo – Ematerce
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