

A peregrinação até Canindé, no Ceará, reúne fé, superação e solidariedade em uma caminhada de aproximadamente 110 quilômetros pelo sertão. Para além do desafio físico, a Romaria Coração Franciscano proporciona momentos de reflexão, convivência e gratidão | Foto: Grupo Coração Franciscano
12 de outubro de 2026 – Na última sexta-feira, 9 de outubro, iniciei uma jornada que talvez tenha sido uma das experiências espirituais mais intensas da minha vida. Era por volta de uma hora da madrugada quando, a convite do amigo Ilonius Saraiva, companheiro de pedaladas, dei os primeiros passos de uma caminhada que, naquele momento, eu ainda não compreendia inteiramente.
O ponto de partida era o Posto Ceará, na BR-020, em Caucaia. O destino, Canindé, um dos mais importantes centros de peregrinação católica do mundo. A caminhada acontecia em um ano especialmente simbólico para os devotos de São Francisco das Chagas: o Ano Jubilar Franciscano, que marca os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, em 1226.

Ao longo de quatro dias, o grupo Romaria Coração Franciscano, formado por cerca de 90 integrantes, cumpriria um percurso de aproximadamente 110 quilômetros até a Basílica de São Francisco das Chagas. Uma jornada cuidadosamente planejada por uma equipe que demonstrou, do início ao fim, competência, organização e uma extraordinária capacidade de cuidar das pessoas.
Eu estava entre os estreantes. Não havia feito nenhuma promessa, tampouco sabia explicar com precisão o que me levara até ali. Talvez fosse a curiosidade de viver uma experiência diferente. Talvez a necessidade, ainda inconsciente, de encontrar respostas que a rotina não nos permite procurar.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<

Os primeiros 20 quilômetros, até a Fazenda Pão de Açúcar, foram suficientes para mostrar que a caminhada exigiria muito mais do que disposição. O calor acumulado no asfalto, depois de um dia inteiro sob o sol do semiárido nordestino, castigava principalmente os pés.
Para quem não estava acostumado àquele esforço, cada quilômetro representava uma nova descoberta dos próprios limites.
O descanso veio em uma rede armada na varanda de uma antiga casa de fazenda. Algumas horas de sono foram suficientes para recuperar parte das energias e enfrentar o trecho seguinte: mais 16 quilômetros até o Centro de Apoio aos Romeiros da Fazenda Boisa, no município de Maranguape.
Ao final dessa etapa, apareceram as primeiras bolhas no calcanhar esquerdo e nos dedos do pé direito. O desnível do acostamento da rodovia, somado ao esforço repetitivo, parecia contribuir para o surgimento das lesões.
Naquela noite, não sei se propriamente dormi. Foi mais parecido com um desmaio provocado pelo cansaço. O sono profundo, entretanto, cumpriu sua função de preparar o corpo para mais uma jornada.

Na madrugada de sábado, por volta das quatro horas, retomamos a caminhada em direção à casa de dona Fátima. Seriam outros dez quilômetros percorridos sob o céu ainda escuro.
Ao longo da estrada, desenvolvi uma estratégia particular: evitar olhar para o horizonte. Não queria enxergar as enormes subidas que ainda teria pela frente. Preferia observar o chão, concentrando a atenção nos próximos passos.
Curiosamente, foi olhando para baixo que comecei a enxergar mais profundamente para dentro de mim.
O silêncio da madrugada, interrompido apenas pelos passos dos romeiros, pelas conversas ocasionais e pelas orações, favorecia reflexões que dificilmente encontrariam espaço na correria cotidiana.
Pensei na família, nas amizades, no trabalho, nas decisões tomadas ao longo da vida e naquelas que ainda precisarei tomar.
Tenho escolhido os melhores caminhos? Estou dedicando tempo suficiente às pessoas que amo? Minhas prioridades realmente correspondem ao que considero importante?
A estrada não oferecia respostas prontas. Mas criava as condições necessárias para fazer perguntas que, muitas vezes, preferimos adiar.
Enquanto isso, o corpo continuava dando sinais de desgaste. A dor nos pés aumentava e, em alguns momentos, surgia a angústia de estar ali, enfrentando tamanho sofrimento físico, enquanto familiares e amigos aproveitavam de outra maneira o feriadão de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

Foi nesse contexto que conheci Martinha, uma senhora de aproximadamente 75 anos, da idade da minha mãe, cuja disposição e dedicação aos romeiros me impressionaram profundamente.
Com uma paciência admirável, ela ajudava a cuidar dos pés machucados de quem enfrentava a longa caminhada. No meu caso, foi necessário tratar as bolhas e proteger as regiões lesionadas, evitando complicações que poderiam comprometer ainda mais a peregrinação.
Enquanto observava aqueles cuidados, não conseguia deixar de pensar na generosidade daquela mulher.
Martinha dedicava seu tempo, sua experiência e sua energia a pessoas que, em muitos casos, jamais havia encontrado antes.
Sem discursos ou demonstrações grandiosas, praticava um dos ensinamentos mais essenciais de São Francisco: o amor ao próximo manifestado por meio de atitudes concretas.
Naquele momento, comecei a compreender que a romaria não era apenas uma demonstração individual de fé. Era também uma experiência coletiva de solidariedade, em que o sofrimento de um encontrava amparo na generosidade do outro. E generosidade traduzida também na entrega de cestas básicas à famílias necessitadas que cruzaram o caminho da nossa romaria.
No final do dia, seguimos em direção a Campos Belos, distrito do município de Caridade. O planejamento previa mais 17 quilômetros de caminhada.
Foi na entrada da localidade, depois de enfrentar uma longa subida, que meu corpo finalmente deu um sinal incontornável.
Ao parar em um ponto de hidratação, a cerca de dois quilômetros do próximo local de descanso, senti os músculos das pernas travarem. As dores foram tão intensas que fiquei tonto e tive dificuldade até para me sentar.
Precisei ser amparado.

Mais uma vez, encontrei na equipe de apoio da Romaria Coração Franciscano a atenção e o cuidado que marcaram toda aquela experiência.
Ali, diante da impossibilidade física de continuar, precisei tomar uma decisão difícil: interromper minha caminhada.
Eu havia ido além do que meu corpo conseguia suportar.
Segui de carro até a Fazenda Boa Vista 2, onde Martinha voltou a cuidar dos meus pés. Com a experiência de quem já havia acompanhado tantos romeiros, confirmou aquilo que eu relutava em aceitar: havia chegado ao meu limite físico.
Naquela noite, dormi ao relento, em uma rede, sob um céu estrelado como raramente conseguimos observar nas cidades. A escuridão do sertão permitia enxergar uma imensidão de estrelas que parecia convidar a novas reflexões.
O cansaço acumulado produziu sensações estranhas. Em determinado momento, acordei sobressaltado, como se a alma estivesse retornando ao corpo. Mais tarde, despertei novamente, desta vez tremendo de frio.
Eram sinais de uma experiência fisicamente extenuante, que deixaria marcas muito além das bolhas nos pés.

Na madrugada de domingo, acompanhei a preparação dos colegas que seguiriam em direção à sede de Caridade, enfrentando mais um trecho de aproximadamente 20 quilômetros.
Enquanto observava a partida, tive a sensação de que havia tomado a decisão correta.
Meu objetivo inicial era participar de uma peregrinação de 110 quilômetros. Eu havia conseguido percorrer cerca de 61 quilômetros a pé, de acordo com meu registro pessoal.
Poderia considerar aquilo uma derrota. Mas não foi assim que me senti.
Começava a perceber que o significado daquela experiência não estava necessariamente em completar a distância planejada, mas no que havia aprendido durante o percurso.
Continuei acompanhando o grupo com o apoio da organização e seguimos até a casa do senhor Antônio José, onde participamos da missa dominical.
A caminhada prosseguia para os demais romeiros. Para mim, continuava de outra maneira, agora menos marcada pelo esforço físico e mais pela compreensão do que havia vivido.
Já em Canindé, durante um dos últimos encontros do grupo, no salão paroquial da Igreja de São Brás, dona Jussinaide, coordenadora-geral da romaria, convidou um participante estreante a compartilhar seu testemunho sobre a experiência com o Coração Franciscano.
Alguns companheiros sugeriram que eu falasse.
Aceitei, ainda sem saber exatamente o que dizer.
A primeira palavra que me veio à mente foi gratidão.
Gratidão pelos dias de convivência, pelas orações, pelas reflexões, pelos cuidados recebidos e pela oportunidade de conhecer pessoas tão dedicadas ao próximo.

Mas, enquanto falava, fui tomado por uma emoção inesperada.
Comecei a lembrar das conquistas profissionais, dos amigos, da família e de tantas razões pelas quais deveria agradecer a Deus.
Foi então que surgiu, com uma clareza que eu ainda não havia experimentado durante a caminhada, o verdadeiro sentido daquela peregrinação.
No dia 6 de janeiro deste ano, meu filho mais velho, Hermano, sofreu um grave acidente de carro durante uma viagem a trabalho. O veículo capotou, mas, apesar da violência do acidente, ele saiu completamente ileso.
Naquele instante, diante dos companheiros de romaria, compreendi que talvez tivesse carregado comigo, durante toda a caminhada, um agradecimento que ainda não havia conseguido transformar em palavras.
Eu não precisava fazer uma promessa. Tinha, na verdade, muito a agradecer.
A emoção tomou conta de mim ao lembrar que meu filho estava vivo, saudável e continuava ao nosso lado.
Era esse, afinal, o maior motivo da minha gratidão.
Ao retornar dessa experiência, trago comigo as marcas físicas de uma caminhada exigente, mas também uma percepção diferente sobre os caminhos que escolhemos percorrer.
A romaria me ensinou que perseverar é importante, mas reconhecer os limites também exige coragem. Que a fé se revela nas orações, mas igualmente no cuidado silencioso de pessoas como Martinha. E que, muitas vezes, precisamos nos afastar da rotina para perceber aquilo que realmente merece nossa atenção.
Não percorri a pé todos os 110 quilômetros até Canindé. Meu corpo parou antes. Mas a experiência espiritual continuou até o último encontro, a última oração e o momento em que consegui compreender o que me havia levado até ali.





Talvez a maior conquista de uma peregrinação não esteja na distância percorrida, mas na transformação que ela provoca em quem decide caminhar.
Voltei com os pés machucados, o corpo cansado e o coração agradecido.
Sobretudo, voltei com a convicção de que algumas das maiores bênçãos da vida estão tão próximas de nós que, por vezes, deixamos de reconhecer sua verdadeira dimensão.
Também espero que em 2027, quem sabe na próxima romaria, eu tenha mais para agradecer. Até já tenho em mente o que seria, mas vamos aguardar a concretização desses desejos, não é?
Viva Nosso Senhor! Viva São Francisco das Chagas! E vida longa à Romaria Coração Franciscano!
Por Hermann Hesse, jornalista, editor do Portal Terra da Luz e diretor da Platinum Comunicação.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para o editor do Portal Terra da Luz.
Leia também | Anvisa autoriza testes em humanos de vacina brasileira contra malária

Tags: Romaria Coração Franciscano, Canindé, São Francisco das Chagas, São Francisco de Assis, Ano Jubilar Franciscano 2026, Jubileu Franciscano, 800 anos de São Francisco, Romaria de Canindé, Peregrinação religiosa, Turismo religioso, Fé e espiritualidade, Religiosidade popular, Sertão cearense, Ceará, Fortaleza, Caucaia, Maranguape, Caridade, Campos Belos, Basílica de São Francisco das Chagas, Caminhada de fé, Peregrinos, Romeiros, Nossa Senhora Aparecida, Fé católica, Gratidão a Deus, Superação pessoal, Solidariedade, Experiência espiritual, Testemunho de fé, Devoção franciscana, Amor ao próximo, Artigo de opinião, Hermann Hesse, Platinum Comunicação, Portal Terra da Luz