

Bancos e instituições financeiras revisaram suas projeções para a economia brasileira em 2027 após a reeleição do presidente Lula. O Itaú passou a estimar inflação de 6,1% e crescimento do PIB de apenas 0,5%, enquanto analistas alertam para os impactos do câmbio, dos combustíveis e das incertezas fiscais | Foto: Ilustração/Portal Terra da Luz
01 de novembro de 2026 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato provocou uma revisão das expectativas de bancos e instituições financeiras para a economia brasileira em 2027. Analistas passaram a projetar inflação mais elevada, crescimento econômico menor e maior dificuldade para o Banco Central reduzir os juros diante das incertezas fiscais e dos riscos de aumento dos preços.
O movimento ocorre após uma semana de forte instabilidade nos mercados. Segundo levantamento da CNN Brasil, o Ibovespa acumulou queda de 18% na semana seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais, enquanto o dólar registrou valorização de 9,17%.
A reação surpreendeu parte dos investidores, que trabalhava com a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e de uma política fiscal mais restritiva. Com a continuidade de Lula na Presidência, as instituições passaram a reavaliar os impactos das medidas econômicas anunciadas ou previstas para o próximo ano.
Entre os principais fatores de preocupação estão a alta do dólar, os efeitos do fenômeno El Niño sobre os alimentos, a reforma tributária, o fim da escala de trabalho 6×1 e a possibilidade de aumento nos preços dos combustíveis.
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O Itaú apresentou uma das revisões mais expressivas entre as instituições financeiras consultadas.
O banco elevou de 4,6% para 6,1% sua estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2027, um aumento de 1,5 ponto percentual.
A instituição também reduziu sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o próximo ano, de 1,2% para apenas 0,5%.
A revisão considera a possibilidade de manutenção de juros elevados por mais tempo, diante de uma inflação pressionada e do endividamento de famílias e empresas.
Para Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú e ex-diretor do Banco Central, as condições monetárias restritivas poderão intensificar a desaceleração da atividade econômica.
“A revisão reflete a incorporação de uma taxa de juros mais elevada e uma dinâmica da atividade mais fraca ao longo do próximo ano. A necessidade de manutenção de condições monetárias restritivas por mais tempo deve intensificar os efeitos cumulativos do aperto monetário sobre o consumo, o investimento e as condições de crédito”, escreveu o economista em relatório.
Guillen também alerta para os efeitos da combinação entre baixo crescimento e inflação elevada sobre a renda da população.
“Esse quadro tende a ser agravado pela combinação de atividade mais fraca e maior pressão inflacionária, que limita o crescimento da renda real e do consumo, com impacto particularmente relevante sobre aqueles de menor renda. […] Nesse contexto, esperamos baixo dinamismo da demanda doméstica em 2027 e balanço de riscos para o crescimento ainda assimétrico para baixo.”
As projeções do Itaú foram detalhadas em relatório divulgado em 30 de outubro.
Outras instituições financeiras também estão revisando suas estimativas ou aguardando definições do governo sobre a condução da política econômica.
A Lifetime Investimentos pretende elevar sua projeção de inflação para um patamar superior a 5%, mas ainda não divulgou um número definitivo.
Segundo Marcela Kawauti, economista-chefe da instituição, persistem incertezas relacionadas à equipe econômica e ao orçamento federal.
“A gente não está divulgando a projeção certinha agora, porque tem muita coisa para ser resolvida, muita pergunta sem resposta em relação à equipe econômica, em relação ao orçamento do ano que vem, que não está aprovado e eles certamente vão precisar arrumar para abarcar a parte do ‘pacote de bondades'”, ponderou.
O Daycoval pretende elevar sua projeção para o IPCA de 2027 de 4,2% para 4,7%.
Já o Banco Pine trabalha atualmente com estimativa de 4,5%, mas poderá revisar os números diante dos riscos associados ao El Niño e aos combustíveis.
A Warren mantém oficialmente, desde agosto, uma previsão de inflação de 5,2% para o próximo ano.
Entretanto, Andréa Angelo, estrategista de inflação da gestora, avalia que os efeitos da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) poderão adicionar 0,3 ponto percentual ao indicador.
Em um cenário de maior estímulo econômico por meio dos gastos públicos, a inflação poderá superar 5,5%, segundo a análise.
Instituições como XP e Bradesco também estão reavaliando suas estimativas. O Bradesco deverá apresentar um novo cenário na sexta-feira, 6 de novembro.
Projeções do IPCA para 2027

Estimativas de diferentes instituições; algumas ainda estão sujeitas a revisão.
* Revisão pretendida pelo Daycoval. Os demais valores representam projeções divulgadas até a data da reportagem, não resultados efetivos.
A mediana das projeções do mercado financeiro reunidas no Boletim Focus do Banco Central estava em 4,34% para a inflação de 2027, conforme a pesquisa de 23 de outubro, divulgada no dia 26.
Esse número vinha sendo revisado gradualmente para cima e permanecia abaixo de algumas das novas projeções individuais dos bancos.
As revisões de inflação também afetam as expectativas para a atividade econômica brasileira.
O Itaú reduziu sua previsão para o PIB de 2027 de 1,2% para 0,5%, considerando o impacto de juros mais elevados, crédito restrito e menor capacidade de consumo das famílias.
A ASA apresentou um cenário ainda mais cauteloso, com expectativa de crescimento próximo de zero no próximo ano.
A instituição também considera a possibilidade de recessão, dependendo da evolução das expectativas dos agentes econômicos e das condições financeiras.
O quadro preocupa analistas porque uma economia em desaceleração, acompanhada de inflação persistente, limita a capacidade de recuperação da renda e do consumo.
Os especialistas identificam diferentes fatores capazes de elevar a inflação brasileira em 2027.
A valorização de 9,17% do dólar na semana posterior às eleições aumenta o risco de encarecimento de produtos importados, matérias-primas e insumos utilizados na produção nacional.
Outro fator é o El Niño, fenômeno climático que poderá afetar a produção agropecuária e pressionar os preços dos alimentos.
A reforma tributária também entrou nas projeções, especialmente após a sugestão de alíquota da CBS apresentada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que superou expectativas de alguns analistas.
As mudanças relacionadas ao fim da escala de trabalho 6×1 são outro ponto de atenção. Estudos citados pelo mercado indicam que a necessidade de contratação de mais trabalhadores poderá elevar custos operacionais, com eventual repasse aos preços.
O setor de combustíveis completa a relação de riscos, diante da manutenção do petróleo acima de US$ 100 por barril e da perspectiva de retorno de impostos federais com o encerramento dos subsídios.
Esses fatores poderão afetar tanto os custos de produção quanto os preços pagos pelos consumidores.
A condução das contas públicas pelo novo governo Lula é outro elemento central nas projeções.
Antes das eleições, parte dos investidores esperava que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro resultasse na adoção de medidas fiscais mais restritivas, favorecendo a estabilização da dívida pública e uma futura redução dos juros.
Com a reeleição de Lula, as atenções se voltaram para a composição da nova equipe econômica, especialmente para a escolha de quem comandará o Ministério da Fazenda.
Em análise divulgada após a confirmação do resultado eleitoral, o Goldman Sachs destacou a importância das primeiras definições políticas e fiscais do próximo mandato.
“Após as eleições, depois da esperada reprecificação significativa na segunda-feira, a direção do mercado e dos preços dos ativos provavelmente vai ir em função das declarações políticas, particularmente no que diz respeito a cargos-chave no gabinete (para os investidores, o mais importante seria quem lideraria o Ministério da Fazenda) e a um esboço mais preciso da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos”, escreveu a equipe de pesquisa da instituição.
O mercado espera sinais sobre como o governo pretende equilibrar despesas, arrecadação e a trajetória da dívida pública.
Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, afirmou em entrevista ao CNN Money que a ausência de uma estratégia clara de consolidação fiscal poderá pressionar as expectativas de inflação não apenas em 2027, mas também nos anos seguintes.
“Quanto mais demora, fica pior, porque ninguém sabe exatamente qual é o novo plano do governo para controlar [os gastos públicos] e melhorar as contas fiscais”, afirmou.
A preocupação é que a falta de previsibilidade sobre a política fiscal aumente a percepção de risco dos investidores e provoque pressões adicionais sobre o câmbio e os juros.
Esse cenário dificultaria a atuação do Banco Central no controle da inflação e poderia prolongar o período de taxas elevadas.
Apesar das projeções mais pessimistas, alguns fatores poderão contribuir para reduzir a pressão sobre os preços.
Carlos Lopes, economista do banco BV, aponta que a proposta de gratuidade do transporte público aos finais de semana, anunciada por Lula na reta final do segundo turno, poderá exercer efeito de redução sobre os índices de inflação.
A medida, caso implementada nacionalmente, poderia compensar parcialmente outros fatores de alta dos preços.
A desaceleração da economia e os efeitos acumulados dos juros elevados também podem contribuir para conter parte da demanda.
Entretanto, os analistas consideram que os riscos de alta permanecem relevantes.
A diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS GWM, Solange Srour, destaca que a combinação de câmbio pressionado, custos trabalhistas, reforma tributária, combustíveis e El Niño poderá provocar reajustes mais amplos.
“O risco é que essas altas não se limitem aos preços diretamente afetados e se propaguem aos componentes mais persistentes da inflação”, ressalta.
Segundo a economista, a ausência de medidas fiscais capazes de melhorar a percepção sobre a trajetória da dívida pública poderá provocar novos aumentos nas expectativas de preços.
“Sem medidas fiscais capazes de recuperar a confiança na trajetória da dívida, as expectativas poderão voltar a subir, influenciando reajustes de preços e salários e reforçando a própria dinâmica inflacionária.”
As projeções representam cenários elaborados pelas instituições financeiras, sujeitos a mudanças conforme as decisões do governo, a evolução da economia e o comportamento dos preços.
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