

Antes e depois de três meses do tratamento com medicamento para câncer de pulmão | Foto: Divulgação
01 de novembro de 2026 – Um comprimido tomado uma vez ao dia está transformando as perspectivas de tratamento para um grupo específico de pacientes com câncer de pulmão avançado. Uma pesquisa recente revelou que 55% das pessoas tratadas com lorlatinibe permaneceram vivas e sem progressão da doença após sete anos de acompanhamento, resultado considerado inédito por especialistas em oncologia.
O medicamento representa um avanço no tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células, mas sua indicação é restrita a pacientes que apresentam uma alteração genética conhecida como rearranjo do gene ALK.
Essa característica está presente em aproximadamente 3% a 7% dos casos do tipo mais comum de câncer de pulmão.
Embora o tratamento beneficie uma parcela específica dos pacientes, os resultados chamam a atenção diante da gravidade da doença. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de pulmão é o que mais provoca mortes por câncer entre homens e mulheres no Brasil, com 31.237 óbitos anuais.
O avanço científico, entretanto, enfrenta obstáculos para chegar à população. O lorlatinibe pode custar cerca de R$ 37 mil por mês e ainda não está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
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O lorlatinibe pertence a uma classe de medicamentos denominada terapia-alvo, desenvolvida para combater alterações moleculares específicas responsáveis pelo crescimento das células cancerosas.
Diferentemente dos tratamentos tradicionais, definidos principalmente pelo órgão em que o câncer se desenvolve, as terapias-alvo utilizam informações genéticas para identificar mecanismos que sustentam a doença.
No caso do câncer de pulmão de não pequenas células, cerca de 3% a 5% dos pacientes apresentam um rearranjo no gene ALK.
Essa alteração provoca a produção de uma proteína anormal que envia sinais contínuos de crescimento e multiplicação celular.
O lorlatinibe foi desenvolvido para bloquear a atividade dessa proteína, interrompendo os estímulos que favorecem a proliferação do tumor.
O medicamento também busca superar duas dificuldades observadas em tratamentos anteriores: o desenvolvimento de resistência pelas células cancerosas e a capacidade limitada de algumas substâncias de alcançar o cérebro.
Uma das características do lorlatinibe é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura natural que protege o cérebro e dificulta a entrada de diversas substâncias.
Essa propriedade é importante porque as metástases cerebrais estão entre as complicações frequentes do câncer de pulmão avançado com alteração no gene ALK.
Segundo os dados apresentados na reportagem original, entre 25% e 40% dos pacientes podem desenvolver tumores no cérebro nos dois anos seguintes ao diagnóstico.
O lorlatinibe já possui aprovação para utilização clínica. Os novos resultados não representam o lançamento de um medicamento, mas a ampliação do período de acompanhamento dos pacientes tratados.
Com sete anos de observação, os pesquisadores conseguiram avaliar por quanto tempo o controle da doença foi mantido.
O principal resultado do estudo foi a manutenção do controle da doença em mais da metade dos participantes após sete anos.
Entre os pacientes tratados com lorlatinibe, 55% continuavam vivos e sem progressão do câncer ao fim do período analisado.
Para o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, os números refletem uma evolução significativa dos tratamentos direcionados à alteração genética ALK.
“Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”, afirma.
A evolução permite que médicos e pacientes discutam perspectivas de controle prolongado da doença, mesmo diante de diagnósticos considerados graves.
Os especialistas ressaltam, contudo, que a ausência de progressão não significa cura e que os resultados não podem ser estendidos a todos os tipos de câncer de pulmão.
A experiência de Paula Piteri ilustra a importância desse avanço para pessoas diagnosticadas com a doença.
Ela tinha 38 anos quando descobriu, em 2020, um nódulo no pulmão que foi identificado como câncer.
Mãe de três filhos, Paula mantinha hábitos saudáveis e não tinha histórico de tabagismo. A descoberta ocorreu durante um exame de rotina.
Na época do primeiro diagnóstico, ela não realizou sequenciamento genético. O tumor foi removido cirurgicamente e a paciente acreditou que a doença havia sido superada.
Entretanto, em 2025, recebeu a notícia de que o câncer havia retornado.
“Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, conta.
Após a identificação da condição genética associada à doença, Paula iniciou o tratamento com lorlatinibe, medicamento fornecido por seu plano de saúde.
Atualmente, ela utiliza a terapia há quase um ano e relata que voltou a fazer planos para o futuro.
“É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”, afirma.
O oncologista Stephen Stefani considera que os resultados precisam ser analisados dentro da evolução histórica do tratamento do câncer de pulmão.
Segundo ele, o acompanhamento de pacientes durante sete anos representa uma informação relevante, especialmente quando comparado às perspectivas existentes no período em que a quimioterapia era a principal alternativa.
“A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avalia.
O biomédico Matheus Henrique Dias, pesquisador de medicamentos contra o câncer na Holanda e especialista em biologia molecular, também destaca o impacto potencial da terapia.
“Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, afirma.
Apesar dos avanços, os especialistas ressaltam que ainda existem questões importantes a esclarecer.
No estudo, 45% dos pacientes não alcançaram o resultado de permanecer vivos e sem progressão da doença após sete anos. Os pesquisadores precisam compreender melhor os fatores relacionados às diferenças de resposta ao tratamento.
Outro ponto destacado pelos especialistas é a ocorrência de efeitos adversos associados ao lorlatinibe.
Segundo os dados da pesquisa, 52% dos pacientes apresentaram algum efeito relacionado ao sistema nervoso central.
Entre as manifestações relatadas estão alterações cognitivas, mudanças de humor e, com menor frequência, problemas psiquiátricos mais graves.
No total, eventos adversos classificados como grau 3 ou 4, considerados graves, foram registrados em 77% dos participantes.
Para Matheus Henrique Dias, o avanço na sobrevida precisa estar acompanhado de atenção à qualidade de vida dos pacientes.
“A gente vê que ainda há alguns pontos que precisam ser considerados. É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas”, ressalta.
Esses resultados reforçam a importância do acompanhamento especializado durante o tratamento e da avaliação individual dos benefícios e riscos da terapia.
Antes mesmo do acesso ao medicamento, existe outro desafio: identificar quais pacientes apresentam a alteração genética ALK.
O diagnóstico molecular depende de exames específicos que nem sempre estão disponíveis nos serviços de saúde.
Esses testes são fundamentais para determinar se o tumor possui características que justificam a utilização de uma terapia-alvo.
Sem a identificação correta da alteração genética, o paciente pode não ter acesso ao tratamento mais adequado ao seu tipo de câncer.
“Não adianta fazer o teste num sistema onde o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”, resume Gustavo Schvartsman.
O especialista destaca, assim, a necessidade de ampliar tanto a disponibilidade dos exames moleculares quanto o acesso às terapias direcionadas.
O alto custo é um dos principais obstáculos à utilização do lorlatinibe no Brasil.
De acordo com os valores apresentados na reportagem, uma caixa com 30 comprimidos pode custar até R$ 37 mil, quantidade correspondente a aproximadamente um mês de tratamento.
Caso esse valor fosse mantido durante os sete anos de acompanhamento observados no estudo, o custo acumulado ultrapassaria R$ 3,1 milhões por paciente.
O medicamento é coberto por planos de saúde nas condições previstas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), mas ainda não foi incorporado ao SUS.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) avaliou a inclusão da terapia, porém a proposta não foi aprovada em razão da relação entre custo e benefício para o sistema público.
“O Comitê de Medicamentos considerou que, apesar das evidências apresentadas e dos benefícios do tratamento, a relação de custo-efetividade não aponta eficiência para o SUS, tendo em vista que nenhuma das intervenções ficou abaixo do limite de custo-efetividade”, informou a comissão em relatório.
O g1 procurou o Ministério da Saúde para saber se existe previsão de uma nova avaliação sobre a incorporação do medicamento, mas não obteve resposta até a publicação original.
Os resultados do acompanhamento de sete anos representam uma mudança importante nas perspectivas de tratamento para pacientes com câncer de pulmão avançado e rearranjo do gene ALK.
A possibilidade de manter a doença sem progressão por períodos prolongados reforça o potencial das terapias-alvo e da medicina orientada por características genéticas dos tumores.
Entretanto, os desafios relacionados aos efeitos colaterais, ao diagnóstico molecular e ao custo do medicamento mostram que o avanço científico ainda precisa ser acompanhado de medidas que ampliem o acesso ao tratamento.
Para os especialistas, o próximo desafio é permitir que os benefícios observados nos estudos alcancem mais pacientes, sem perder de vista a segurança, a qualidade de vida e a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
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