

O longa-metragem “Nova Terra”, dirigido por Fram Paulo, valoriza a paisagem da Caatinga, a cultura popular e as histórias ancestrais do Sertão Central cearense. | Foto: divulgação
08 de novembro de 2026 – O cinema produzido no interior do Ceará ganha destaque com o longa-metragem “Nova Terra”, dirigido pelo cineasta Fram Paulo e realizado pela Uzina Filmes. A primeira exibição da obra aconteceu neste sábado (7), no Centro Pastoral de Senador Pompeu, durante a programação da 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca. A sessão teve entrada gratuita e contou com a presença do diretor, elenco e equipe técnica, além de um debate com o público.
Contemplado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o filme transforma a paisagem da Caatinga em elemento central da narrativa. A história acompanha sete jovens artistas de teatro que se isolam no Sertão Central para desenvolver um espetáculo autoral. No entanto, o processo criativo toma novos rumos quando o grupo entra em contato com as inscrições da Pedra do Letreiro, os mistérios da Serra dos Encantados e as histórias ancestrais da região.
A partir dessas experiências, a criação teatral se transforma na formação da Irmandade Nova Terra, em uma narrativa que aproxima realidade, teatro, espiritualidade, memória e mitologia.
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Para o diretor Fram Paulo, o sertão ultrapassa a função de cenário e assume um papel ativo na construção da história, influenciando os conflitos e as transformações dos personagens.

“O sertão não é um vazio. Ele respira, ensina, guarda memórias e revela forças invisíveis a quem sabe escutar. Sempre digo que o sertão é um universo e há o sertão dentro e fora de mim”, afirma.
O cineasta explica que essa perspectiva orientou a construção estética e narrativa da produção.
“No filme, ele deixa de ser pano de fundo e passa a agir diretamente sobre os personagens, conduzindo conflitos e transformações. A Caatinga não testemunha a história; ela é quem dita o tempo da história”, acrescenta.
A relação do diretor com a cultura popular também influencia a obra. Antes de sua formação cinematográfica, Fram Paulo teve contato com o teatro comunitário, o reisado, as manifestações populares e as histórias transmitidas oralmente.
“Antes de qualquer formação acadêmica, minha experiência com arte veio do terreiro, do reisado, das histórias contadas à noite. Eu já fazia teatro sem saber. Em Nova Terra, essa raiz aparece na forma como os corpos ocupam o espaço e como a palavra ganha força dentro da imagem”, destaca.
O longa-metragem reúne majoritariamente artistas locais e apresenta personagens com diferentes experiências, conflitos e perspectivas sobre a vida no sertão.

Luana Aflla estreia no audiovisual como Margarida, personagem que defende questões relacionadas à soberania agrária, à posse da terra e aos direitos da população sertaneja.
Renato de Humaitá, ator e professor de teatro, interpreta Jeremias, ligado às lendas contadas pela avó e às dimensões espirituais da Mata Branca. Já Jeovan Lucas, conhecido como Bedeu, vive Pedro, personagem inicialmente cético e resistente às experiências místicas da irmandade, mas que percorre um caminho de descoberta e pertencimento.
Lua Augusto também estreia no cinema como Mariana, personagem marcada pela violência cotidiana e pela busca de mecanismos de proteção. A atriz destaca ainda a importância da presença de artistas trans e travestis em papéis protagonistas no audiovisual brasileiro.
Marília Holanda interpreta Coralina, jovem que transforma experiências de privação e trauma em fé no teatro. Durante as filmagens, a atriz descobriu a gravidez do filho Bento, estabelecendo uma relação simbólica entre sua trajetória pessoal e o processo de transformação vivido pela personagem.
Ermesson Matos, como Albino, e João Charlie, no papel de Tonho, representam personagens que carregam experiências de desamparo e encontram na irmandade uma possibilidade de pertencimento.
A dimensão ancestral da história ganha força com Soraia Falcão, intérprete da Contadora de Histórias, personagem que conecta passado e presente e levanta reflexões sobre a preservação dos sítios arqueológicos e da memória nordestina.
Luciano Lopes completa o elenco como o Radialista, que acompanha os acontecimentos da comunidade por meio das ondas do rádio e introduz na narrativa as tensões de um mundo marcado por incertezas.

A construção da atmosfera do filme também envolve elementos sonoros captados diretamente na região. Galhos secos, vento, vegetação e canto dos pássaros integram a paisagem sonora e aproximam o espectador do ambiente sertanejo.
A trilha musical ganha destaque com “Canção da Nova Terra”, música-tema interpretada pelos cantores Agna Ruth e Dedezinho.
Outro diferencial da produção está na acessibilidade. A tradutora e intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) Vitória Nogueira, de Acopiara, participou do projeto desenvolvendo sinais específicos para identificar personagens como Panier, Jeremias, Margarida, Mariana, Coralina, Pedro, Tonho e Albino.
A proposta incorpora a Libras à identidade dos personagens e ao universo narrativo da obra, ampliando as possibilidades de representação e inclusão no audiovisual.
A escolha de Senador Pompeu para a primeira exibição estabelece uma conexão direta entre o filme e o território que inspirou sua realização. A sessão integrou a 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca, programação relacionada à memória social do Ceará e às lutas históricas da população sertaneja.
Produzido fora dos grandes centros do audiovisual, “Nova Terra” também evidencia o potencial cinematográfico do interior cearense e a possibilidade de construir narrativas próprias a partir da cultura, da paisagem e das experiências das comunidades.
A estreia representa o primeiro encontro da produção com o público e abre espaço para discussões sobre o processo criativo, as referências culturais da obra e os caminhos do cinema independente desenvolvido no Sertão Central.
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