
Pesquisadores carbonizaram uma réplica de um rolo de papiro em uma câmara com baixo teor de oxigênio para recriar as condições que carbonizaram, mas não destruíram, os antigos rolos de Herculano | Foto: Douglas Seiler
22 de setembro de 2026 – Cientistas encontraram uma nova pista que pode ajudar a decifrar os Manuscritos de Herculano, rolos de papiro carbonizados durante a erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C.
Centenas desses artefatos permanecem guardados, sem leitura completa, na Biblioteca Nacional de Nápoles, na Itália.
Por serem extremamente frágeis, os papiros não podem ser desenrolados fisicamente. Agora, pesquisadores combinam tecnologia de raios X e inteligência artificial para tentar revelar textos antigos escondidos no interior dos rolos.
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Um novo estudo, publicado em 16 de setembro na revista científica PLOS One, aponta que a presença de chumbo na tinta pode facilitar a leitura dos pergaminhos.
Ao recriar papiros com tintas contendo diferentes quantidades de chumbo, os pesquisadores descobriram que a radiografia conseguia detectar com mais facilidade a tinta metálica do que tintas sem metal.
A descoberta pode ajudar a selecionar quais manuscritos reais têm maior potencial para serem desenrolados e decifrados de forma virtual.
O desafio é que muitos pergaminhos foram escritos com tinta de fuligem, enquanto o papiro carbonizado também é composto de carbono.
Esse cenário dificulta o trabalho da inteligência artificial.
“Você compra para o churrasco. Não há muita diferença”, disse Douglas Seiler, autor principal do estudo e pesquisador voluntário da Universidade da Califórnia, Berkeley. “É só carbono, e esse tem sido o problema na leitura desses textos. A tinta é feita de fuligem.”
Segundo Seiler, quando o chumbo aparece na tinta, o contraste melhora nas varreduras de raios X.
A IA tem dificuldade em detectar a tinta em pergaminhos sem metal, por se tratar de “carbono escuro sobre carbono escuro”. Com o chumbo, a tinta brilha nas imagens, permitindo melhor identificação do texto.
O próximo passo, segundo os pesquisadores, é testar os pergaminhos originais de Herculano para verificar a porcentagem de chumbo presente em cada um.
“Se levassem esses pergaminhos um a um para um laboratório, poderiam descobrir em questão de minutos se continham chumbo ou não”, disse Seiler. “O sinal do chumbo é muito forte.”
Até agora, apenas alguns pergaminhos reais foram desenrolados virtualmente.
Os resultados do novo estudo podem indicar quais rolos são os melhores candidatos para futuras tentativas de leitura não invasiva.

Para testar a hipótese, Seiler e uma equipe de pesquisadores recriaram pergaminhos usando papiro egípcio e tinta de carbono semelhante à usada em Pompeia.
Os pesquisadores escreveram passagens próprias, incluindo trechos da Bíblia, roteiros de filmes de Alfred Hitchcock e do programa de televisão “The Outer Limits”.
Depois, os papiros foram enrolados e carbonizados em um forno com pouco oxigênio e alta temperatura, em condições semelhantes às que preservaram os pergaminhos originais durante a erupção do Vesúvio.
As réplicas foram enviadas a pesquisadores do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, em Gaithersburg, no estado de Maryland, nos Estados Unidos.
Com tomografia de raios X e técnicas de desenrolamento virtual, os cientistas conseguiram reconstruir os pergaminhos e identificar textos legíveis em diferentes níveis de concentração de chumbo.
“Na verdade, eles captaram as imagens muito, muito melhor do que pensávamos”, afirmou Seiler.
Os resultados oferecem uma nova oportunidade para ler alguns dos pergaminhos mais complexos de Herculano.
Além disso, o método de recriação dos papiros pode permitir mais treinamento de inteligência artificial e melhorar o desempenho dos algoritmos na leitura de textos antigos.
O avanço integra esforços científicos que buscam recuperar obras preservadas por quase dois mil anos, mas ainda inacessíveis por causa da fragilidade dos materiais.
Até o momento, um pergaminho inteiro e trechos de outros foram decifrados em grande parte graças ao Desafio Vesúvio, projeto lançado em 2023 para incentivar pesquisadores a decifrar manuscritos em troca de prêmios em dinheiro.
A maioria dos pergaminhos estudados até agora estava em melhor estado de conservação.
No entanto, mais de 600 rolos permanecem fechados, muitos deles amassados ou fragmentados na biblioteca de Nápoles.
Para esses casos, procurar vestígios de chumbo pode ser o melhor caminho inicial, segundo os pesquisadores.

O cientista da computação Brent Seales, cocriador do Desafio Vesúvio, identificou tinta metálica em pergaminhos de Herculano pela primeira vez em 2009, enquanto estudava um rolo na Universidade de Kentucky.
Depois, um estudo de 2016 encontrou chumbo em outros dois pergaminhos fragmentados.
Para Seales, há grande variabilidade nas formulações das tintas usadas nos manuscritos.
Ele ressalta, no entanto, que a presença de metal pode ter sido acidental, e não necessariamente um ingrediente padrão da época.
“Pergaminhos com metal na tinta são um pouco mais fáceis de ler usando o desdobramento virtual. Mas isso não significa que os pergaminhos sem metal não possam ser lidos”, afirmou Seales.
Segundo ele, o Desafio Vesúvio mostrou que a inteligência artificial pode ajudar mesmo nos casos mais difíceis.
Seales, que não participou do novo estudo, elogiou o trabalho da equipe.
“De alguma forma, os pergaminhos encontraram um jeito de sobreviver, e nós encontramos um jeito de resgatá-los”, afirmou. “Se a sua revelação for facilitada por reações químicas acidentais, como a presença de chumbo na tinta, podemos adicionar mais um milagre à série necessária para trazer essas palavras de volta da beira do abismo.”
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