

Escápula esquerda de Shanidar A, fóssil de neandertal que viveu há cerca de 75 mil anos, analisada por pesquisadores da Universidade de Cambridge | Foto: University of Cambridge
18 de outubro de 2026 – Um ferimento identificado no esqueleto de um neandertal que viveu há aproximadamente 75 mil anos pode representar uma das mais antigas evidências de morte provocada por uma lança de madeira durante um confronto entre indivíduos. A descoberta foi apresentada em um estudo publicado na revista científica Scientific Reports, que analisou restos humanos encontrados na caverna de Shanidar, no Curdistão iraquiano.
O indivíduo, identificado pelos pesquisadores como Shanidar A, tinha aproximadamente 45 anos quando morreu, idade considerada avançada para os padrões populacionais dos neandertais. Os cientistas encontraram uma perfuração quase circular na escápula esquerda, osso localizado na região do ombro, com cerca de 15 milímetros de diâmetro.
As características do ferimento sugerem que uma arma pontiaguda, provavelmente uma lança de madeira, tenha atingido o corpo pela frente, atravessando tecidos do tórax antes de alcançar o osso.
A pesquisa, liderada pela arqueóloga Emma Pomeroy, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, reúne evidências que ajudam a compreender não apenas a violência entre populações humanas antigas, mas também a existência de possíveis relações de cuidado e comportamentos funerários complexos.
Os resultados foram publicados em 15 de outubro de 2026 e integram uma investigação internacional sobre a vida dos neandertais no Paleolítico Médio.
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O principal indício identificado pelos pesquisadores está na escápula esquerda de Shanidar A, preservada durante milhares de anos sob camadas de sedimentos da caverna.
O osso apresenta um orifício quase circular, com aproximadamente 1,5 centímetro de diâmetro, cercado por pequenas fraturas e fragmentos deslocados.
Para investigar sua origem, os cientistas utilizaram exames microscópicos e microtomografia computadorizada, tecnologia capaz de produzir imagens detalhadas da estrutura interna do material.
As análises indicaram que a perfuração ocorreu quando o osso ainda apresentava características de tecido vivo ou recentemente morto, descartando explicações mais prováveis relacionadas à deterioração posterior.
Também não foram encontradas evidências de cicatrização, indicando que o ferimento aconteceu próximo ao momento da morte.
Segundo os autores, a lesão é compatível com um impacto penetrante capaz de provocar danos graves aos órgãos internos.
O formato do orifício oferece pistas importantes sobre o tipo de instrumento que pode ter causado a lesão.
Os pesquisadores observaram que pontas de pedra costumam produzir marcas com características mais angulares, enquanto instrumentos de madeira com seção arredondada podem deixar perfurações semelhantes à identificada na escápula.
A comparação com estudos experimentais e descobertas arqueológicas anteriores fortaleceu a hipótese de que Shanidar A tenha sido atingido por uma lança de madeira.
A arqueóloga Emma Pomeroy destacou, em entrevista ao g1, que a identificação exata da arma não é possível porque nenhum fragmento de madeira foi preservado junto ao esqueleto.
“Nunca podemos ter certeza, porque a madeira não se preservou, mas uma lança de madeira parece a explicação mais provável”, afirmou a pesquisadora.
A hipótese também encontra respaldo em descobertas de armas de madeira muito mais antigas na Europa, que demonstram o domínio dessa tecnologia por populações humanas pré-históricas.
Embora esses instrumentos raramente sejam preservados, suas características podem ser estudadas indiretamente por meio das marcas deixadas em ossos e outros materiais.
A trajetória do ferimento é um dos aspectos mais importantes da descoberta.
Os exames indicam que a arma entrou pela região anterior do corpo e alcançou a escápula pela parte interna, em um movimento da frente para trás.
A posição e o formato da lesão são compatíveis com a hipótese de uma lança utilizada para golpear a curta distância, e não necessariamente arremessada.
“Com uma lança de estocada, é preciso estar muito perto de alguém quando se ataca. E sabemos que o ferimento veio pela frente, então Shanidar A provavelmente estava de frente para quem o atingiu”, explicou Pomeroy ao g1.
Os pesquisadores consideram que a arma poderia ter atravessado o tórax, atingindo estruturas vitais, como o pulmão e grandes vasos sanguíneos.
Uma lesão dessa natureza poderia provocar hemorragia intensa e morte rápida.
Entretanto, a reconstrução permanece hipotética, pois os tecidos moles não foram preservados e não é possível determinar com precisão todos os órgãos atingidos.
Embora as características do ferimento sejam compatíveis com um ataque, os cientistas não afirmam que Shanidar A tenha sido assassinado.
Um acidente durante uma atividade de caça continua sendo uma explicação possível.
Os neandertais utilizavam armas para caçar animais de grande porte e frequentemente precisavam se aproximar das presas, situação que poderia provocar acidentes graves.
A pesquisa também não permite identificar quem teria provocado o ferimento.
Se houve um confronto, não é possível determinar se o agressor pertencia ao mesmo grupo, a outra comunidade neandertal ou a uma população humana diferente.
A investigação oferece, portanto, uma evidência física de possível violência interpessoal, mas não comprova a intenção de matar.
Registros desse tipo são raros no Paleolítico, sobretudo porque a preservação de esqueletos suficientemente completos para identificar traumas penetrantes é incomum.
A descoberta amplia o conjunto de evidências disponíveis para estudar conflitos entre populações humanas antigas.

Os restos de Shanidar A também revelaram outra informação importante: o indivíduo havia sobrevivido anteriormente a um trauma facial severo.
A análise dos dentes identificou um incisivo partido longitudinalmente e sinais de alterações na posição e no desgaste da dentição.
A presença de tártaro e outras modificações indica que ele continuou vivo por um período significativo depois do acidente, provavelmente durante pelo menos um ano.
A gravidade da lesão sugere que Shanidar A pode ter enfrentado dificuldades para mastigar alimentos, beber líquidos e se comunicar.
Essas limitações teriam exigido adaptações em sua rotina e, possivelmente, o auxílio de outros integrantes da comunidade.
Segundo os pesquisadores, a sobrevivência prolongada após um trauma tão grave constitui uma evidência importante para a discussão sobre comportamentos de solidariedade entre os neandertais.
Entretanto, ainda não é possível estabelecer quanto dessa recuperação dependeu da ajuda de outras pessoas e quanto resultou da própria capacidade de adaptação do indivíduo.
Para Emma Pomeroy, a coexistência de ferimentos com características tão diferentes torna Shanidar A especialmente relevante para compreender o comportamento das populações humanas antigas.
“Vemos duas facetas contrastantes da natureza humana, o cuidado e a violência, reunidas no mesmo indivíduo”, afirmou a pesquisadora.
A interpretação considera que o neandertal pode ter recebido assistência durante a recuperação do trauma facial e, posteriormente, sofrido um ferimento fatal provocado por uma arma.
Essa combinação contribui para questionar representações simplificadas dos neandertais como indivíduos incapazes de estabelecer relações sociais complexas.
Os estudos arqueológicos das últimas décadas vêm reunindo indícios de que essas populações possuíam conhecimentos técnicos, estratégias de sobrevivência e comportamentos sociais elaborados.
A descoberta de Shanidar A acrescenta novos elementos ao debate sobre a origem evolutiva do cuidado com indivíduos vulneráveis e da violência entre seres humanos.
A caverna de Shanidar, localizada nas montanhas do atual Curdistão iraquiano, é considerada um dos sítios arqueológicos mais importantes para o estudo dos neandertais.
Desde as escavações iniciadas na década de 1950, pesquisadores identificaram restos de diferentes indivíduos, alguns associados a possíveis práticas de sepultamento.
Os restos de Shanidar A foram recuperados em campanhas arqueológicas realizadas em 2019 e 2022.
A pesquisa indica que seu corpo foi depositado em um ponto específico da caverna, próximo a uma grande formação rochosa.
Nos anos ou décadas seguintes, pelo menos outros quatro neandertais foram colocados em uma área muito próxima.
A repetição do uso desse espaço sugere que o local poderia possuir significado para o grupo, embora não seja possível determinar com precisão a existência de rituais religiosos ou crenças relacionadas à morte.
Os autores também identificaram evidências de que os restos foram posteriormente deslocados por uma enxurrada, processo que contribuiu para modificar a posição original dos ossos.
A interpretação de sepultamentos intencionais continua sendo objeto de debate científico, mas o conjunto de descobertas reforça a possibilidade de comportamentos funerários organizados.
Os neandertais, conhecidos cientificamente como Homo neanderthalensis, habitaram regiões da Europa e da Ásia durante centenas de milhares de anos.
Embora apresentassem características anatômicas diferentes das dos seres humanos modernos, compartilhavam diversas capacidades relacionadas à fabricação de ferramentas, exploração de ambientes e organização social.
A análise dos restos de Shanidar A revela aspectos dessas capacidades a partir de evidências físicas preservadas durante cerca de 75 mil anos.
O possível uso de uma lança de madeira como arma, a sobrevivência após um ferimento facial grave e a deposição do corpo junto a outros indivíduos oferecem pistas sobre diferentes dimensões da vida neandertal.
Para os pesquisadores, novas análises experimentais serão necessárias para compreender melhor o impacto que produziu a perfuração na escápula e avaliar possíveis cenários para a morte.
A descoberta demonstra como técnicas modernas de investigação podem revelar informações sobre acontecimentos ocorridos dezenas de milhares de anos antes do surgimento das sociedades históricas.
Mais do que apontar uma possível morte violenta, o estudo ajuda a reconstruir relações humanas antigas marcadas por sobrevivência, conflitos, cooperação e cuidado.
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