

Novas simulações computacionais questionam a hipótese de que cometas tenham transportado intactas para a Terra primitiva moléculas essenciais ao surgimento da vida. Segundo os pesquisadores, as altas temperaturas e pressões provocadas pelos impactos podem ter destruído parte desses compostos orgânicos | Foto: Preston Dyches/NASA
01 de novembro de 2026 – Uma nova pesquisa científica está colocando em dúvida uma teoria sobre a origem da vida na Terra. Simulações computacionais indicam que os cometas, considerados durante décadas possíveis responsáveis pelo transporte de moléculas essenciais à formação dos primeiros organismos, podem não ter conseguido entregar esses compostos intactos ao planeta.
O estudo, publicado na quarta-feira (28) na revista científica Scientific Reports, sugere que as altas velocidades dos impactos teriam provocado temperaturas e pressões capazes de destruir moléculas orgânicas necessárias às reações químicas que antecederam o surgimento da vida.
A descoberta questiona uma hipótese discutida desde pelo menos 1961, segundo a qual cometas poderiam ter depositado na Terra primitiva parte dos ingredientes químicos necessários ao aparecimento dos primeiros seres vivos.
A ideia mais ampla de que materiais relacionados à vida podem ter origem extraterrestre está associada às discussões sobre panspermia, conceito apresentado cientificamente em 1908.
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Há mais de 4 bilhões de anos, a Terra pode ter atravessado um período de intenso bombardeio por corpos celestes, incluindo mais de 100 mil cometas com diâmetro superior a 100 metros.
Formados principalmente por gelo, poeira e outros materiais, os cometas também contêm moléculas orgânicas, característica que levou pesquisadores a considerá-los possíveis transportadores de substâncias importantes para a química pré-biótica.
Para investigar essa possibilidade, cientistas utilizaram modelos atualizados de formação e evolução dos cometas e realizaram 100 mil simulações das condições existentes nos primeiros períodos da história terrestre.
Os resultados indicaram que a maioria dos impactos teria ocorrido em velocidades elevadas demais para preservar as moléculas transportadas.
“Considerando o que sabemos sobre os ambientes da superfície da Terra primitiva, em média, nossas simulações constataram que não houve impactos bem-sucedidos”, afirmou Richard Anslow, autor principal do estudo, que desenvolveu a pesquisa durante seu doutorado no Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
Segundo os pesquisadores, os cometas possuíam substâncias relevantes para o surgimento da vida, mas a violência das colisões teria dificultado sua preservação.
“As velocidades típicas desses cometas ao impactarem a Terra significavam que, na verdade, muito poucos, ou nenhum, seriam capazes de transportar moléculas orgânicas intactas. Portanto, os cometas não parecem ser tão úteis para a química pré-biótica quanto se pensava anteriormente”, explicou Anslow.
Em 54% das simulações, não houve nenhum impacto capaz de entregar com sucesso o composto analisado. Nos 46% restantes, ocorreu pelo menos um evento considerado potencialmente bem-sucedido, enquanto uma pequena parcela apresentou até três colisões dessa natureza.
Apesar dos resultados, o pesquisador ressalta que não é possível descartar completamente a ocorrência de impactos favoráveis no passado.
“Não podemos descartar com certeza que nunca houve um impacto bem-sucedido, pode ter havido um desses impactos fortuitos”, afirmou.
Entretanto, uma colisão desse tipo precisaria acontecer em um ambiente com condições adequadas, incluindo água líquida e outros elementos químicos necessários à formação de compostos relacionados à vida.
A combinação desses fatores tornaria o processo pouco provável, segundo os autores.
O estudo concentrou as análises no cianeto de hidrogênio, conhecido pela sigla HCN, uma substância formada por hidrogênio, carbono e nitrogênio.
O composto é considerado um precursor importante da química pré-biótica, pois pode participar de reações que levam à formação de aminoácidos, moléculas utilizadas na constituição das proteínas.
O HCN já foi identificado em dezenas de cometas, incluindo o Halley e o Hale-Bopp.
Apesar de sua presença nesses corpos celestes, os pesquisadores concluíram que o composto dificilmente chegaria intacto à superfície terrestre durante colisões de alta velocidade.
“Quando os cometas atingem a Terra, são submetidos a altas temperaturas e pressões, e estudos recentes descobriram que muitas dessas moléculas precursoras podem ser destruídas por essa alta pressão e temperatura, bem como pelos impactos subsequentes”, explicou Anslow.
Mesmo nos casos em que parte da substância sobrevivesse, sua concentração poderia ser insuficiente para favorecer as reações necessárias ao surgimento da vida.
Se o impacto ocorresse no oceano, por exemplo, o HCN poderia se dissolver rapidamente, reduzindo a possibilidade de concentração em um ambiente adequado.
Os cientistas destacam que o cianeto de hidrogênio, isoladamente, não seria suficiente para permitir o desenvolvimento da química pré-biótica.
Outras substâncias, incluindo compostos que contêm fósforo e enxofre, também seriam necessárias para a formação de moléculas mais complexas.
Esses elementos, entretanto, não são encontrados rotineiramente em cometas nas condições exigidas pelas reações estudadas.
“Os cometas são ótimos para fornecer cianeto de hidrogênio, mas, como o local de impacto de um cometa na Terra é aleatório, não temos garantia de que encontraremos tudo o mais necessário para essa química exatamente naquele ponto”, destacou Anslow.
A necessidade de reunir diferentes substâncias em um mesmo ambiente representa mais uma dificuldade para a hipótese de que impactos cometários tenham sido decisivos no surgimento da vida.
Caso os cometas não tenham desempenhado o papel anteriormente imaginado, outras explicações continuam sendo investigadas pelos cientistas.
Uma delas é a hipótese da sopa primordial, segundo a qual as condições químicas da Terra primitiva teriam permitido a formação espontânea de moléculas orgânicas complexas a partir de substâncias presentes no próprio planeta.
Outra possibilidade envolve os asteroides, que geralmente atingiam a superfície terrestre em velocidades menores e em maior quantidade do que os cometas.
Essa característica poderia favorecer a preservação de materiais orgânicos durante as colisões.
Richard Anslow também destacou descobertas recentes feitas em amostras dos asteroides Bennu e Ryugu, nas quais foram identificados diversos aminoácidos importantes para a formação de proteínas.
Os resultados reforçam a possibilidade de que asteroides tenham contribuído para o fornecimento de ingredientes químicos à Terra primitiva.
A pesquisa também levantou uma possibilidade relacionada à história de Marte.
Segundo os cientistas, o planeta vermelho pode ter apresentado condições mais favoráveis à preservação de determinadas moléculas transportadas por cometas.
Isso ocorreria porque Marte possui massa menor que a Terra e está localizado mais distante do Sol, fatores que influenciam as velocidades das colisões.
“Como Marte é muito menor que a Terra e está mais distante do Sol, a velocidade típica de impacto dos cometas é muito menor, então, enquanto esses impactos na Terra destruíam a maior parte do HCN, o mesmo não acontecia em Marte”, explicou Anslow.
A hipótese acrescenta uma nova perspectiva às pesquisas sobre a possibilidade de o planeta vermelho ter apresentado condições favoráveis ao surgimento da vida.
“É apenas mais uma perspectiva para termos em mente quando tentamos entender a evolução inicial de Marte com mais detalhes”, acrescentou o pesquisador.
Embora os resultados questionem a eficiência dos cometas no transporte de cianeto de hidrogênio intacto, cientistas que não participaram da pesquisa consideram prematuro descartar completamente sua contribuição para a química da Terra primitiva.
Queenie Chan, professora associada de Ciências da Terra na Royal Holloway University of London, explicou que o HCN pode ter passado por transformações químicas antes da entrada dos cometas na atmosfera terrestre.
Essas reações poderiam ter produzido compostos biologicamente relevantes, incluindo componentes associados à formação de proteínas, com maior capacidade de sobreviver aos impactos.
“Portanto, a ineficiência no fornecimento de HCN intacto não descarta completamente um papel potencial dos cometas no fornecimento de outros compostos orgânicos importantes que podem ter contribuído para o estoque orgânico pré-biótico da Terra antes do surgimento da vida”, afirmou Chan, em resposta por e-mail.
Nicolle Zellner, professora de Física do Albion College, em Michigan, nos Estados Unidos, também avaliou os resultados.
A pesquisadora afirmou não ter ficado surpresa com as conclusões e destacou que os autores estabeleceram limites importantes para a probabilidade de cometas terem transportado moléculas intactas até a Terra.
Apesar disso, ela também considera que esses corpos celestes não devem ser completamente descartados como possíveis participantes dos processos químicos relacionados ao surgimento da vida.
O estudo, portanto, não apresenta uma resposta definitiva para a origem da vida, mas oferece novas evidências sobre as dificuldades que moléculas orgânicas enfrentariam ao chegar à Terra por meio de cometas.
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