
Retratos funerários produzidos no Egito há quase dois mil anos preservam cores e detalhes graças, em parte, à técnica da encáustica, que utiliza cera de abelha e pigmentos. A restauração do Tondo dos Dois Irmãos destaca a importância desse método na conservação da arte antiga | Foto: Google/Imagem criada por IA
17 de outubro de 2026 – Uma técnica artística desenvolvida na Antiguidade ajuda a explicar como pinturas produzidas há quase dois milênios conseguiram preservar cores intensas, expressões humanas e detalhes surpreendentes. Conhecida como encáustica, a prática utiliza cera de abelha aquecida e pigmentos para criar pinturas resistentes à ação do tempo. O método foi empregado em parte dos célebres retratos funerários de Fayoum, no Egito, considerados importantes testemunhos do encontro entre as tradições egípcias e a cultura greco-romana.
A durabilidade dessa técnica voltou a despertar interesse internacional após a restauração do Tondo dos Dois Irmãos, uma rara pintura circular produzida no século II d.C. e preservada no Museu Egípcio do Cairo.
A obra passou por um trabalho de conservação realizado por especialistas egípcios e italianos, que recuperaram detalhes da composição e estabilizaram estruturas comprometidas pela ação de insetos e pelo envelhecimento dos materiais.
O retrato será uma das principais atrações de uma exposição internacional em Roma, prevista para começar em 5 de novembro de 2026, reunindo mais de 110 peças relacionadas à arte funerária do Egito Antigo.
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A encáustica é uma técnica de pintura que combina pigmentos coloridos com cera aquecida, permitindo sua aplicação sobre superfícies como madeira.
No Egito sob domínio romano, artistas utilizaram o método para criar retratos funerários de aparência realista, nos quais se destacavam detalhes dos olhos, cabelos, roupas e expressões faciais.
A cera de abelha desempenhava uma função essencial: atuar como aglutinante, mantendo as partículas de pigmento unidas e aderidas à superfície.
Além disso, sua resistência à umidade contribuía para proteger as camadas de pintura contra determinados processos de deterioração.
O trabalho exigia habilidade e rapidez. Como a mistura endurecia ao esfriar, os artistas precisavam controlar a temperatura e aplicar os pigmentos antes que a cera perdesse a maleabilidade.
Com instrumentos apropriados, era possível trabalhar diferentes tonalidades, criar transições suaves e construir efeitos de luz e sombra.
O resultado eram retratos capazes de transmitir profundidade, volume e características individuais dos personagens representados.
Embora a encáustica tenha contribuído para a preservação dessas pinturas, as condições secas de determinadas regiões do Egito também foram fundamentais para sua sobrevivência.
Os retratos funerários de Fayoum estão entre os exemplos mais conhecidos da pintura produzida no Egito durante o período romano.
As obras geralmente apresentam homens, mulheres e crianças representados de frente ou em três quartos, com atenção especial aos traços do rosto.
Muitas pinturas foram realizadas sobre finos painéis de madeira posteriormente posicionados sobre a região facial das múmias, integrando os rituais funerários tradicionais.
Essa prática revela uma combinação singular de referências culturais: a mumificação associada às crenças religiosas egípcias e a representação individualizada característica da pintura greco-romana.
Nem todos os retratos foram produzidos com encáustica. Alguns também utilizaram têmpera, outra técnica de pintura que emprega aglutinantes diferentes da cera.
Atualmente, são conhecidos menos de mil exemplares preservados em coleções e museus ao redor do mundo, segundo os organizadores da exposição prevista para Roma.
Entre os exemplos mais raros dessa tradição artística está o Tondo dos Dois Irmãos, também conhecido como Tondo de Antinoópolis.
A pintura, datada de meados do século II d.C., diferencia-se de grande parte dos retratos funerários de Fayoum por seu formato circular e pela presença de duas figuras masculinas lado a lado.
A palavra tondo, de origem italiana, designa uma composição artística em formato redondo.
A representação conjunta de dois jovens, tradicionalmente identificados como irmãos, torna a obra especialmente interessante para os pesquisadores.
O retrato revela características da pintura romana, com atenção às proporções do rosto, aos efeitos de iluminação e à individualização das figuras.
A peça integra o acervo do Museu Egípcio do Cairo e foi selecionada para participar de uma exposição que reunirá importantes exemplos da produção artística do Egito romano.
O trabalho de conservação do Tondo dos Dois Irmãos durou aproximadamente três semanas e envolveu profissionais do Egito e da Itália.
A intervenção foi necessária porque a estrutura de madeira apresentava danos provocados por cupins, enquanto determinadas áreas da superfície pictórica estavam fragilizadas.
Os especialistas precisaram estabilizar o suporte e consolidar as camadas de pintura para reduzir o risco de desprendimento dos pigmentos.
O procedimento também possibilitou melhorar a leitura de detalhes da figura localizada à direita da composição.
A restauração não teve como objetivo recriar integralmente a aparência original da pintura, mas preservar seus elementos autênticos e garantir condições adequadas para sua conservação e exposição.
O resultado foi apresentado publicamente no Cairo, em 11 de outubro, antes da transferência da obra para a mostra internacional.
A iniciativa representa um exemplo de cooperação entre instituições culturais e equipes especializadas na preservação de bens arqueológicos.
O uso da cera de abelha demonstra que artistas antigos dominavam propriedades de materiais naturais muito antes do desenvolvimento das tintas industriais modernas.
A escolha dos pigmentos, o controle do aquecimento e a aplicação das camadas exigiam conhecimentos práticos de química dos materiais, ainda que esses processos não fossem explicados pelos conceitos científicos atuais.
A resistência dessas pinturas também dependeu da preparação dos suportes e das características ambientais dos locais onde permaneceram preservadas.
Para a arqueologia e a conservação de patrimônio, o estudo da encáustica oferece informações valiosas sobre tecnologias artísticas, circulação de materiais e práticas culturais.
A análise dos retratos permite ainda conhecer aspectos da sociedade do Egito romano, incluindo vestimentas, penteados, adornos e formas de representação pessoal.
Além de objetos funerários, essas pinturas constituem registros visuais de indivíduos que viveram há aproximadamente dois mil anos.
O Tondo dos Dois Irmãos será apresentado na exposição Il Potere del Ritratto. Egitto e Roma. I volti del Fayum — em português, O Poder do Retrato: Egito e Roma, os Rostos de Fayoum.
A mostra acontecerá no Museu da Ara Pacis, em Roma, entre 5 de novembro de 2026 e 2 de maio de 2027.
O evento reunirá mais de 110 peças, incluindo painéis pintados, máscaras funerárias, sudários, esculturas, objetos de mármore, moldes de gesso e joias antigas.
O conjunto contará com empréstimos de importantes instituições internacionais, entre elas o Museu Egípcio do Cairo, o Louvre e outras coleções dedicadas à arte da Antiguidade.
Segundo os organizadores, esta será uma oportunidade excepcional de apresentar ao público europeu um conjunto expressivo de retratos de Fayoum provenientes de museus egípcios.
A exposição pretende mostrar como as tradições culturais do Egito, da Grécia e de Roma se influenciaram mutuamente na maneira de representar a identidade e a memória dos mortos.
A longevidade dos retratos de Fayoum demonstra a importância da combinação entre técnicas artísticas, materiais adequados e condições ambientais favoráveis.
Ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de conservação especializada para preservar obras que chegaram aos dias atuais após séculos de transformações.
A restauração do Tondo dos Dois Irmãos também amplia o acesso a conhecimentos sobre a história da pintura e os rituais funerários de sociedades antigas.
Mais do que recuperar detalhes de uma obra, a intervenção permite reconhecer a habilidade dos artistas que utilizaram recursos naturais para produzir representações humanas cuja expressividade continua impressionando pesquisadores e visitantes.
Quase dois mil anos depois, a cera de abelha permanece como um dos elementos que ajudam a explicar a sobrevivência desse patrimônio artístico.
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