

Cristiane da Costa foi diagnosticada com hipotireoidismo autoimune associado à tireoidite de Hashimoto após apresentar sintomas persistentes no pós-parto. | Foto: divulgação
03 de outubro de 2026 – Os sintomas podem parecer comuns da rotina, do estresse ou até do período pós-parto, mas, em alguns casos, podem estar relacionados a uma condição que exige investigação médica. Foi o que aconteceu com a biomédica Cristiane da Costa, diagnosticada com hipotireoidismo autoimune associado à tireoidite de Hashimoto após o nascimento da filha.
Na época, Cristiane tinha 32 anos, estava vivendo a primeira gravidez e havia se mudado do Piauí para o Ceará para trabalhar. Durante a gestação, exames apontaram que a bebê não crescia como o esperado. Apesar da restrição de crescimento, a criança nasceu bem, mamou e não apresentou complicações.
No pós-parto, porém, foi Cristiane quem começou a perceber mudanças no próprio corpo. Vieram a fraqueza, o cansaço intenso, a sonolência, o inchaço e as alterações de humor.
“Todo mundo dizia que era normal, que era do parto, da privação de sono, da criança. Mas aquele cansaço não passava. Eu estava com uma aparência de pessoa doente”, relata.
A procura por atendimento médico e a realização de exames levaram ao diagnóstico de hipotireoidismo autoimune associado à tireoidite de Hashimoto.
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De acordo com o clínico geral e médico do trabalho do Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar (ISGH), Dr. Rômulo Viana, a tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune. Nesse quadro, o sistema de defesa do organismo passa a atacar a própria tireoide, glândula localizada na parte da frente do pescoço.
A condição pode atingir qualquer pessoa, mas é mais frequente em mulheres adultas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 pela revista Frontiers in Public Health, que reuniu 48 estudos, estimou prevalência global de 17,5% entre mulheres e de 6,0% entre homens. Na América do Sul, a prevalência agrupada estimada foi de 8,0%, embora os estudos disponíveis para a região sejam limitados.
Os sintomas podem aparecer de forma gradual. Entre os sinais citados estão cansaço, sonolência, desânimo, esquecimento, dificuldade de concentração, alterações menstruais e dificuldade para engravidar. Em alguns casos, também pode ocorrer aumento do volume do pescoço, conhecido como bócio.
Cristiane conta que as alterações de memória chamaram atenção. “Eu esquecia coisas. Uma pessoa podia conversar comigo hoje e, no dia seguinte, eu não lembrar que tinha falado com ela. Comecei a ter muitas falhas de memória”, explica.
Em determinado momento, ela chegou a considerar a possibilidade de estar desenvolvendo depressão. Procurou terapia e, posteriormente, ampliou a investigação com acompanhamento médico e exames para avaliar hormônios, vitaminas e minerais.
Segundo as informações apresentadas pelo ISGH, o tratamento consiste na reposição do hormônio que está em falta. Atualmente, aos 40 anos, Cristiane mantém acompanhamento médico e monitora regularmente os hormônios da tireoide.
Ela também incorporou mudanças na rotina, como atividade física e atenção à alimentação.
“Quando eu me alimento bem e faço atividade física, fico muito melhor. Até minha memória funciona melhor. Hoje estou melhor do que antes”, afirma.
A nutricionista do ISGH, Eva Lima, explica que a alimentação tem como principal papel garantir o aporte adequado de nutrientes envolvidos na função da tireoide, além de contribuir para uma alimentação equilibrada e para a saúde metabólica.
“É importante evitar a ideia de que existe uma dieta única que funcione para todas as pessoas com Hashimoto. A conduta deve considerar exames, sintomas, presença de outras doenças e hábitos alimentares”, orienta.
Em vez de seguir uma lista fixa de alimentos permitidos, a recomendação apresentada é manter uma alimentação variada e equilibrada. Peixes, ovos, carnes, frango e feijões são fontes de proteínas. Castanhas, sementes e alguns frutos do mar fornecem minerais como selênio e zinco.
Frutas, verduras e legumes contribuem com fibras, vitaminas e outros nutrientes, enquanto alimentos como azeite, peixes, castanhas e sementes oferecem gorduras de boa qualidade.
O glúten não precisa ser retirado da alimentação de todas as pessoas com Hashimoto. De acordo com a nutricionista, essa mudança é indicada principalmente para quem tem doença celíaca ou outra recomendação médica.
Além da avaliação clínica, alguns exames são utilizados na investigação e no acompanhamento da função da tireoide. Entre eles estão o TSH e o T4 livre, que ajudam a avaliar o funcionamento da glândula, e o anti-TPO, anticorpo relacionado à origem autoimune da doença.
Outros exames também podem fazer parte do acompanhamento, conforme a avaliação médica, como hemograma completo, vitaminas B12 e D, cálcio, perfil lipídico, selênio e zinco.

A experiência de Cristiane também ultrapassou os limites da própria rotina. Depois de compartilhar sua trajetória com colegas, o caso inspirou um projeto desenvolvido por profissionais das áreas de ensino e pesquisa do ISGH para investigar o acompanhamento de gestantes e alterações hormonais durante a gravidez.
O trabalho foi apresentado em congresso e também deu origem a um projeto mais amplo, que segue em desenvolvimento para as próximas etapas.
Para Cristiane, um dos principais aprendizados foi a importância de investigar sintomas persistentes em vez de atribuí-los automaticamente ao estresse, à rotina ou a características pessoais.
“Às vezes, a pessoa pode ser tratada como se fosse desorganizada, esquecida ou até como se tivesse outro problema. Mas existe uma condição por trás daquilo. É importante investigar. Eu nunca imaginei estar naquela situação. Hoje eu estudo, procuro entender a doença e tenho acompanhamento. Aprendi a cuidar mais de mim e vi que essa minha experiência poderia servir para outras mulheres, para que elas não passem pela mesma situação que eu passei”, afirma.
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