

A fossa verde é um sistema individual de tratamento de esgoto construído no próprio terreno da residência. | Foto: divulgação/UFC
15 de outubro de 2026 – Uma tecnologia simples, de baixo custo e sustentável pode contribuir para ampliar o acesso ao saneamento básico na zona rural do semiárido brasileiro. Um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) aponta as fossas verdes como alternativa para tratar esgoto doméstico, reduzir a contaminação do solo e ainda gerar material que pode ser aproveitado como adubo na agricultura.
A pesquisa analisou 72 fossas ecológicas instaladas em um assentamento de reforma agrária no município de Madalena, no Sertão Central cearense. Os resultados indicaram que a exposição solar do lodo acumulado nos sistemas foi eficiente na redução de microrganismos indicadores de contaminação fecal, permitindo classificar o material tratado como biossólido Classe A, conforme os critérios considerados no estudo.
O trabalho ganha relevância diante dos desafios do saneamento rural no Nordeste. Dados de 2019 da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) apontavam que apenas 13% dos domicílios rurais da região contavam com rede coletora de esgoto ou fossa séptica.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<
A fossa verde é um sistema individual de tratamento de esgoto construído no próprio terreno da residência. A estrutura conta com uma caixa impermeabilizada, uma câmara interna feita com tijolos perfurados e camadas de materiais porosos, como entulho, cascas de coco e material terroso.

Esses componentes auxiliam na filtragem dos resíduos, enquanto plantas cultivadas no sistema aproveitam parte da água e dos nutrientes presentes no esgoto.
A tecnologia utiliza princípios de reúso da água e aproveitamento de nutrientes. Parte da água é absorvida pelas plantas ou eliminada por evapotranspiração, enquanto os resíduos sólidos se acumulam e precisam passar por procedimentos adequados de manejo.
No estudo conduzido pela UFC, os pesquisadores investigaram especificamente o destino do lodo acumulado nas fossas e a eficiência da exposição solar em leitos de secagem para reduzir a presença de microrganismos patogênicos.
As fossas analisadas no assentamento de Madalena haviam sido utilizadas continuamente durante aproximadamente 14 anos. Os pesquisadores avaliaram o lodo acumulado após a abertura dos sistemas e sua exposição à radiação solar.
Os resultados mostraram que, entre 15 e 45 dias de secagem, todas as amostras atingiram o critério microbiológico de baixa concentração de Escherichia coli (E. coli), bactéria utilizada como indicador de contaminação fecal.
Com base nos resultados e nos critérios regulatórios considerados pela pesquisa, o material pôde ser classificado como biossólido Classe A, categoria associada a condições sanitárias que permitem determinados usos agrícolas, desde que sejam respeitadas as exigências aplicáveis.
A pesquisa também identificou uma redução rápida da umidade. Em 15 dias, a maioria das fossas analisadas apresentou teor de umidade inferior a 2%.
Em estudos realizados em estufas agrícolas nos municípios de Franca, em São Paulo, e Viçosa, em Minas Gerais, foram necessários cerca de 70 dias de exposição para alcançar umidade de 10% ou menos.
Segundo os pesquisadores, as condições climáticas do semiárido, caracterizadas por temperaturas elevadas e pouca chuva durante a estação seca, podem explicar parte da diferença entre os resultados.

Um dos diferenciais apontados pelo estudo é o intervalo necessário para a retirada do lodo acumulado.
José Carlos de Araújo, professor aposentado do Departamento de Engenharia Agrícola da UFC e um dos autores da pesquisa, explica que fossas convencionais geralmente precisam passar por esvaziamento em intervalos menores, enquanto as fossas verdes avaliadas no assentamento apresentaram um período médio de 14 anos de utilização antes desse procedimento.
“Essa tecnologia permite que cada casa tenha sua fossa. Ela é barata, é pequena, e pode ser utilizada para a produção de plantas para alimentação – porque esses alimentos não se contaminam – ou de plantas ornamentais, como flores”, destaca o professor.
O pesquisador ressalta que o sistema aproveita uma característica abundante no semiárido: a incidência de radiação solar.
“Para o semiárido é perfeito, porque há um nível de insolação muito alto, e a base do mecanismo é o calor do Sol, é ele que vai ser a energia”, justifica.
A frequência de manutenção, contudo, depende das características de cada instalação, do uso do sistema e das condições de operação. O manejo do lodo deve seguir orientações técnicas e sanitárias adequadas.
Para os pesquisadores, o principal objetivo das fossas verdes é impedir que o esgoto seja lançado diretamente nos quintais e no ambiente, contaminando o solo, as águas e expondo moradores e animais a riscos sanitários.
O aproveitamento agrícola do lodo tratado aparece como um benefício adicional da tecnologia, especialmente em áreas rurais que enfrentam dificuldades para recuperar a fertilidade do solo.
“O objeto da fossa verde é tratar o esgoto que antes estava sendo lançado no quintal, contaminando o subsolo, as águas, as pessoas, principalmente as crianças, os animais etc.”, afirma Araújo.
O professor também chama atenção para a vulnerabilidade da Caatinga à degradação ambiental e ao uso inadequado da terra.
“Então, o agricultor vai poder pegar alguma área que esteja com a produtividade muito baixa e aplicar esse lodo, já em forma de biossólido, tratado, e ele vai poder recuperar uma parte”, explica.
O pesquisador resume a proposta ao destacar que o resíduo deixa de ser apenas um problema sanitário e pode ganhar uma destinação produtiva quando tratado corretamente.
“O objetivo da fossa verde é fazer saneamento. Mas, o lodo que seria o resíduo final, ao invés de ser negativo, passa a ter um impacto positivo sobre a comunidade”, completa.
O uso agrícola, entretanto, deve respeitar os critérios sanitários e ambientais aplicáveis, incluindo as condições de tratamento, a destinação autorizada e as restrições relativas às culturas.
Além dos resultados ambientais e sanitários, os autores destacam que a construção das fossas verdes pode ser realizada com materiais acessíveis e mão de obra local capacitada.
A própria UFC participou da implantação de 72 unidades no assentamento de Madalena. Segundo Araújo, a construção foi viabilizada com treinamento relativamente simples de pedreiros que já trabalhavam na região.
O professor defende que a tecnologia seja considerada em políticas públicas voltadas ao saneamento rural no Nordeste, seguindo uma lógica semelhante à das cisternas de placas, utilizadas para armazenar água da chuva em comunidades do semiárido.
“As cisternas de placa são uma experiência muito exitosa de convivência com o semiárido, e as fossas verdes se apresentam com potencial semelhante”, avalia.
Para o pesquisador, a combinação entre saneamento descentralizado, aproveitamento da radiação solar e destinação adequada dos resíduos pode contribuir para melhorar as condições de vida das famílias rurais.
“A gente está aprendendo a parar de ver o Sol como nosso inimigo, no semiárido, e passando a vê-lo com nosso maior aliado”, destaca.
Os resultados do estudo foram publicados em 2026 na revista científica Engenharia Sanitária e Ambiental. Além de José Carlos de Araújo, assinam o artigo os pesquisadores Márcio José Bellizzi Júnior, Christine Farias Coelho e o professor Suetônio Bastos Mota.
*da Agência UFC
Leia também | Cataratas do Iguaçu têm vazão dez vezes maior que a média
Tags: fossas verdes, UFC, Universidade Federal do Ceará, saneamento rural, saneamento básico, saneamento no semiárido, tecnologia sustentável, pesquisa científica, estudo da UFC, Ceará, Madalena Ceará, Sertão Central, semiárido brasileiro, tratamento de esgoto, esgoto doméstico, fossa ecológica, saneamento ecológico, reúso de água, aproveitamento de resíduos, biossólido Classe A, secagem solar, radiação solar, Escherichia coli, saúde pública, agricultura sustentável, adubo orgânico, recuperação do solo, Caatinga, sustentabilidade, tecnologias sociais, políticas públicas, cisternas de placas, agricultura familiar, desenvolvimento rural, meio ambiente, pesquisa universitária, Engenharia Sanitária e Ambiental, Portal Terra da Luz