

A COP17 da Biodiversidade será realizada de 19 a 30 de outubro, em Yerevan, na Armênia, reunindo delegações internacionais para avaliar a proteção dos ecossistemas e os avanços nas metas ambientais de 2030. Entre os desafios estão a conservação de espécies ameaçadas, o financiamento e a ampliação das áreas naturais protegidas | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
18 de outubro de 2026 – A 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (COP17) começa nesta segunda-feira (19), em Yerevan, capital da Armênia, com o desafio de acelerar a proteção e a recuperação dos ecossistemas do planeta. O encontro, que prossegue até 30 de outubro, realizará a primeira avaliação global dos compromissos assumidos pelos países para conter a perda da biodiversidade até 2030.
A conferência reunirá delegações governamentais, pesquisadores, representantes de organizações ambientais, povos indígenas, comunidades tradicionais e integrantes do setor privado. A discussão central será a implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022, que estabelece 23 metas internacionais para a conservação da natureza.
Entre os compromissos está a proteção de pelo menos 30% das áreas terrestres, águas interiores e ambientes marinhos até 2030, objetivo conhecido como meta 30×30.
Apesar dos avanços registrados desde a adoção do acordo, relatórios internacionais indicam que as medidas adotadas ainda são insuficientes para alcançar os resultados esperados.
Sob o tema Taking Action for Nature — Agindo pela Natureza —, a COP17 pretende transformar compromissos diplomáticos em ações efetivas de conservação, recuperação ambiental e financiamento.
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Na apresentação do relatório sobre os avanços globais na implementação do Marco de Kunming-Montreal, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou para a distância entre os compromissos anunciados e os resultados alcançados.
O documento servirá como base para a primeira revisão coletiva das 23 metas ambientais.
Segundo a ONU, os países conseguiram ampliar a proteção legal de aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados de áreas terrestres e 6 milhões de quilômetros quadrados de ambientes marinhos.
Também houve avanços na definição de metas nacionais de conservação por países integrantes da Convenção sobre Diversidade Biológica.
Entretanto, o ritmo permanece abaixo do necessário.
As projeções apresentadas indicam que, mantidas as políticas atuais, apenas 26% dos ambientes terrestres e 12% dos marinhos estarão protegidos até 2030, percentuais inferiores ao compromisso internacional de 30%.
Para Guterres, a reunião deverá exigir resultados concretos dos governos.
“Yerevan é o nosso momento de prestação de contas”, afirmou o secretário-geral.
A avaliação da ONU aponta que o desafio não está apenas na criação de novas áreas protegidas, mas também na qualidade de sua gestão, na recuperação dos ecossistemas degradados e no financiamento das iniciativas de conservação.
O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal foi aprovado durante a COP15, realizada no Canadá, em 2022.
O acordo estabelece objetivos para enfrentar a destruição dos habitats naturais, recuperar áreas degradadas, reduzir pressões sobre espécies ameaçadas e ampliar os investimentos na conservação.
A meta 30×30 é uma das mais conhecidas, mas o documento também contempla o uso sustentável dos recursos naturais, a redução de impactos sobre a biodiversidade e o fortalecimento da participação de povos indígenas e comunidades locais.
A revisão prevista para a COP17 permitirá comparar os compromissos nacionais com os resultados efetivamente alcançados.
Essa avaliação deverá orientar novas medidas para o período restante até 2030, quando os países terão de demonstrar avanços na implementação do acordo.
A conferência também discutirá os instrumentos necessários para acompanhar os resultados, incluindo indicadores, sistemas de monitoramento e cooperação internacional.
A preservação da biodiversidade não representa apenas uma preocupação ambiental. A degradação dos ecossistemas também provoca consequências para a economia, a produção de alimentos, a disponibilidade de água e a saúde humana.
Uma análise do Global Cooperation Institute (GCI), encomendada pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), aponta que os modelos econômicos predominantes contribuem para a perda de espécies e para o agravamento de diferentes crises ambientais.
Entre os impactos estão a escassez de água, as mudanças climáticas, a insegurança alimentar e a maior exposição das populações a riscos sanitários.
O estudo estima que os custos econômicos e ambientais não contabilizados dessas atividades possam alcançar entre US$ 10 trilhões e US$ 25 trilhões por ano.
A avaliação também destaca que países com elevada diversidade biológica frequentemente enfrentam custos significativos para preservar ecossistemas cujos benefícios ultrapassam suas fronteiras.
Por isso, organizações ambientais defendem mecanismos mais acessíveis de financiamento, capacitação e transferência de conhecimentos.
A diretora-geral do WWF Internacional, Kirsten Schuijt, ressaltou a necessidade de acelerar a implementação dos compromissos.
“A COP17 precisa levar os países a agir e implementar seus compromissos. Os benefícios da ação coletiva em favor da natureza são claros: maior resiliência ecológica, sistemas alimentares e hídricos mais seguros e menor vulnerabilidade econômica”, afirmou.
A disponibilidade de recursos financeiros para a conservação da natureza está entre os principais pontos da agenda internacional.
O Marco de Kunming-Montreal estabelece a mobilização de pelo menos US$ 200 bilhões anuais para a biodiversidade até 2030, provenientes de fontes públicas e privadas.
Entretanto, estimativas apresentadas antes da COP17 indicam que o financiamento atualmente mobilizado está entre US$ 75 bilhões e US$ 92 bilhões por ano.
A diferença evidencia a necessidade de ampliar investimentos, especialmente nos países em desenvolvimento e nas regiões que concentram grandes áreas de florestas, rios e ecossistemas marinhos.
Outro tema é a revisão de subsídios e incentivos econômicos que favorecem atividades prejudiciais à natureza.
A discussão envolve agricultura, infraestrutura, exploração de recursos naturais e outros setores cuja atuação pode gerar impactos sobre habitats e espécies.
O objetivo é aproximar políticas econômicas e ambientais, permitindo que a conservação seja incorporada às decisões de investimento e desenvolvimento.
O Brasil terá papel relevante nas negociações por abrigar alguns dos ecossistemas de maior biodiversidade do mundo, incluindo a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa.
Uma das propostas que ganharão destaque na participação brasileira é a ampliação da conectividade ecológica entre áreas naturais.
A medida busca integrar unidades de conservação, rios, florestas e ambientes costeiros por meio de corredores verdes e azuis.
Esses corredores permitem a circulação de animais, a dispersão de sementes e a manutenção de processos ecológicos essenciais para a sobrevivência das espécies.
Também contribuem para reduzir os efeitos da fragmentação de habitats, provocada por estradas, desmatamento, expansão urbana e outras intervenções humanas.
O WWF-Brasil pretende defender o reconhecimento dessa estratégia como um dos elementos fundamentais para alcançar as metas internacionais de biodiversidade.
Para o diretor técnico de Biodiversidade do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira, não basta preservar áreas isoladas sem considerar sua relação com os ecossistemas vizinhos.
“A conservação da biodiversidade exige olhar para além dos limites de áreas protegidas individuais e considerar os ecossistemas como sistemas interligados”, afirmou.
A organização pretende reforçar a proposta de incorporar a conectividade ecológica ao Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas, estabelecido em 2004, durante a COP7.
A iniciativa considera que áreas naturais conectadas possuem maior capacidade de manter populações de animais e plantas, especialmente diante das mudanças climáticas.
Os corredores verdes favorecem a ligação entre florestas e outros ambientes terrestres. Já os corredores azuis priorizam a continuidade ecológica dos rios, zonas úmidas, estuários e ambientes marinhos.
“Proteger e reconectar paisagens terrestres, rios e ambientes marinhos e costeiros é fundamental para ampliar a efetividade da conservação e alcançar as metas de biodiversidade até 2030”, concluiu Marcelo Oliveira.
A COP17 também deverá abordar medidas destinadas à recuperação de áreas degradadas e à melhoria da gestão das unidades de conservação.
Entre os desafios estão a redução da fragmentação de habitats, a recuperação de florestas, a proteção de rios e oceanos e o fortalecimento da participação das comunidades que dependem dos recursos naturais.
A agenda contempla ainda discussões relacionadas à biossegurança e ao compartilhamento justo dos benefícios decorrentes da utilização de recursos genéticos.
Esses assuntos serão tratados em reuniões paralelas vinculadas aos Protocolos de Cartagena e de Nagoya, que integram a estrutura da Convenção sobre Diversidade Biológica.
A expectativa é que o encontro estabeleça encaminhamentos para acelerar a implementação do Marco Global de Kunming-Montreal nos próximos quatro anos.
Com o prazo de 2030 cada vez mais próximo, a conferência na Armênia representa uma oportunidade para os países avaliarem se suas políticas ambientais correspondem às metas assumidas internacionalmente.
O encontro terá como referência o primeiro balanço global da implementação do Marco de Kunming-Montreal.
A discussão deverá evidenciar tanto os avanços obtidos desde 2022 quanto as dificuldades persistentes em financiamento, fiscalização, restauração de ecossistemas e redução das pressões econômicas sobre a natureza.
Para o Brasil, a conferência representa a oportunidade de defender estratégias de conservação que combinem proteção ambiental, integração de ecossistemas e valorização dos conhecimentos das comunidades tradicionais.
O resultado das negociações será importante para definir o ritmo das medidas internacionais de proteção da biodiversidade nos próximos anos.
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