

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Marinha Urupirá, criada no litoral do Rio de Janeiro, abrange aproximadamente 3 mil hectares entre Barra de Guaratiba e o Recreio dos Bandeirantes. A nova unidade busca proteger a biodiversidade marinha, preservar a pesca artesanal e incentivar o turismo sustentável | Foto: Áthila Bertoncini/Governo do Estado do Rio de Janeiro
17 de outubro de 2026 – O Rio de Janeiro ganhou uma nova área de proteção ambiental voltada à conservação da biodiversidade marinha e ao fortalecimento das atividades econômicas tradicionais. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Marinha Urupirá, criada pelo governo fluminense, abrange aproximadamente 3 mil hectares de ambientes costeiros, ilhas, costões rochosos e áreas submersas, reunindo ecossistemas importantes para a reprodução e a sobrevivência de diversas espécies.
Localizada na zona oeste da capital, a unidade de conservação se estende da Ilhota do Frade, em Barra de Guaratiba, até a Pedra do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes. A proposta é conciliar a proteção dos recursos naturais com a manutenção da pesca artesanal, a valorização das comunidades tradicionais e o desenvolvimento ordenado do turismo sustentável.
A criação foi formalizada pelo Decreto Estadual nº 50.530, de 15 de outubro de 2026. A reserva será administrada pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com participação das comunidades locais nos processos de gestão.
A medida representa um avanço na proteção dos ecossistemas marinhos do litoral fluminense e contribui para os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na preservação da biodiversidade.
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A Reserva Marinha Urupirá foi criada para preservar uma região que reúne ambientes essenciais à manutenção da vida marinha, incluindo recifes, ilhas, costões rochosos, áreas rasas e fundos oceânicos.
A delimitação contempla tanto a superfície quanto a coluna d’água e o leito marinho, permitindo ações de conservação que considerem as diferentes formas de vida presentes nesses ambientes.
Além da Ilhota do Frade, a unidade inclui a Ilha Rasa de Guaratiba e áreas dos costões das ilhas das Peças e das Palmas, conforme os limites estabelecidos no decreto estadual.
A região abriga espécies que utilizam esses ambientes para alimentação, abrigo, reprodução e desenvolvimento de filhotes.
A criação da reserva pretende reduzir pressões sobre os ecossistemas e organizar o uso dos recursos naturais, considerando as necessidades das comunidades que dependem economicamente do território.
A instituição da nova reserva também está relacionada aos compromissos assumidos pelo Brasil na Convenção sobre Diversidade Biológica.
Entre os objetivos está a chamada meta 30×30, definida durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP15), realizada em Montreal, no Canadá, em 2022.
O acordo internacional prevê a conservação efetiva de pelo menos 30% das áreas terrestres, das águas interiores e dos ambientes costeiros e marinhos até 2030.
Para o secretário estadual do Ambiente e Sustentabilidade, Rodrigo Mascarenhas, a criação da reserva representa um avanço na contribuição do Rio de Janeiro para o cumprimento dessas metas.
“É um passo fundamental para o cumprimento das metas que o Brasil aderiu em relação à Convenção para Proteção da Biodiversidade. São conhecidas como metas 30×30, que é ter 30% do seu território protegido dentro de unidades de conservação”, afirma.
O secretário também destacou a necessidade de ampliar a conservação dos ambientes aquáticos.
“É uma meta que o Estado já alcançou no que se refere à proteção da parte terrestre do seu território. A outra meta é de ter 30% das águas jurisdicionais de cada país, também protegidas”, acrescentou.
A ampliação das áreas protegidas contribui para preservar habitats, reduzir a perda de biodiversidade e fortalecer a capacidade dos ecossistemas de enfrentar pressões ambientais.
Um dos diferenciais da Reserva Marinha Urupirá é sua classificação como Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), categoria que permite conciliar conservação ambiental e utilização responsável dos recursos naturais.
Diferentemente das unidades de proteção integral, que impõem restrições mais amplas às atividades humanas, as reservas de desenvolvimento sustentável admitem atividades tradicionais compatíveis com seus objetivos de conservação.
Nesse modelo, as comunidades pesqueiras poderão participar da gestão da área, contribuindo para a definição de medidas destinadas à proteção dos ecossistemas e à manutenção dos meios de subsistência.
O projeto Ilhas do Rio, desenvolvido pelo Instituto Mar a Dentro, participou dos estudos e das discussões que fundamentaram a criação da unidade.
Entre as ações previstas estão o monitoramento participativo dos recursos pesqueiros, pesquisas científicas, atividades de educação ambiental e fortalecimento da fiscalização.
Também estão previstos mecanismos para organizar o ecoturismo e a visitação, buscando reduzir impactos ambientais e gerar oportunidades econômicas para as comunidades locais.
A proposta reconhece que a conservação dos ambientes marinhos pode ser fortalecida com a participação das populações que conhecem e utilizam tradicionalmente esses territórios.
Os levantamentos técnicos realizados pelo projeto Ilhas do Rio demonstraram a elevada diversidade biológica existente na região.
As pesquisas identificaram 102 espécies de peixes associadas aos ambientes recifais, incluindo três espécies endêmicas do Brasil, ou seja, que ocorrem naturalmente apenas no território nacional.
Do total identificado, 39 espécies possuem interesse para as atividades pesqueiras.
Entre elas estão garoupas, corvinas, sargos, robalos e xaréus, peixes importantes tanto para os ecossistemas quanto para a atividade econômica das comunidades tradicionais.
Esses ambientes funcionam como áreas de reprodução, alimentação e desenvolvimento de diferentes espécies, incluindo animais cuja conservação exige atenção especial.
Os pesquisadores também identificaram a presença de chernes, peixes ameaçados cuja reprodução depende da preservação de habitats adequados.
A proteção desses espaços poderá contribuir para a manutenção dos estoques pesqueiros e para o equilíbrio ambiental da região.
Além dos peixes, os estudos identificaram 143 espécies de organismos bentônicos, nome utilizado para os seres que vivem associados ao fundo dos ambientes aquáticos.
Entre eles estão polvos, lagostas, corais, estrelas-do-mar e ouriços, que desempenham funções importantes na dinâmica dos ecossistemas.
Algumas dessas espécies possuem valor comercial para a pesca, enquanto outras são fundamentais para a manutenção da biodiversidade.
O levantamento identificou ainda espécies ameaçadas de extinção, como o coral-cérebro (Mussismilia hispida), a estrela-do-mar Astropecten brasiliensis e o ouriço-lilás (Lytechinus variegatus).
A conservação desses organismos depende da preservação da qualidade ambiental e da redução de impactos sobre os habitats marinhos.
A nova unidade deverá favorecer o acompanhamento científico dessas espécies e o desenvolvimento de medidas específicas de proteção.
A gerente de pesquisas do projeto Ilhas do Rio, Aline Aguiar, destaca que os levantamentos científicos evidenciaram tanto a importância ecológica da região quanto sua relação histórica com as comunidades pesqueiras.
“Esses estudos mostraram que a região, as ilhas, os costões rochosos, áreas rasas, elas são muito importantes para as espécies de peixe, por exemplo, espécies ameaçadas como garoupas e chernes [Hyporthodus niveatus], são locais onde aquelas espécies estão se reproduzindo. Ao mesmo tempo, a gente tinha esse conhecimento que existiam as comunidades locais de pesca tradicional, que tinham aquilo ali como um território de pesca. Então, é muito importante você balancear e entender quem são as pessoas que dependem daquele território e proteger esses usos também”, explica.
A avaliação reforça a necessidade de integrar o conhecimento científico à experiência das populações tradicionais.
A participação dos pescadores poderá contribuir para identificar áreas de reprodução, monitorar mudanças nos recursos pesqueiros e estabelecer práticas de utilização compatíveis com a conservação.
O modelo também busca assegurar que a proteção ambiental não comprometa indiscriminadamente o sustento das famílias que dependem historicamente da pesca artesanal.
A importância ambiental da Reserva Marinha Urupirá ultrapassa as espécies que vivem permanentemente em seus recifes e costões.
A área também integra rotas de deslocamento de animais marinhos, incluindo espécies ameaçadas.
Entre os mamíferos identificados estão as baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), que percorrem o litoral brasileiro durante seus movimentos migratórios.
A região também é frequentada por diferentes espécies de tartarugas marinhas, como a cabeçuda (Caretta caretta), a de pente (Eretmochelys imbricata), a oliva (Lepidochelys olivacea) e a de couro (Dermochelys coriacea).
Esses animais enfrentam ameaças relacionadas à poluição, à captura acidental em equipamentos de pesca, à perda de habitats e a outras pressões sobre os ambientes costeiros.
A criação da reserva poderá contribuir para ampliar o monitoramento e reduzir riscos em áreas importantes para a circulação e a alimentação dessas espécies.
A riqueza ambiental da região inclui aves costeiras e espécies de invertebrados que dependem dos ecossistemas preservados.
Entre as aves registradas estão o trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea) e o trinta-réis-de-bando (Thalasseus acuflavidus).
Os levantamentos também destacam espécies como a borboleta-da-praia (Parides ascanius) e a formiga Atta robusta, associadas aos ambientes naturais da faixa costeira.
A presença desses organismos demonstra que a conservação marinha também está relacionada à proteção de áreas terrestres e costeiras próximas.
Por isso, o planejamento da reserva deverá considerar as interações entre ambientes aquáticos, ilhas, costões e ecossistemas litorâneos.
A criação da reserva também abre perspectivas para o desenvolvimento ordenado de atividades ligadas ao turismo de natureza.
A região possui paisagens costeiras, ilhas e ambientes marinhos que podem favorecer iniciativas de observação da fauna, educação ambiental e visitação orientada.
Entretanto, a exploração turística deverá respeitar as regras de conservação e os critérios definidos para o uso sustentável da unidade.
O objetivo é evitar que o aumento da circulação de visitantes provoque degradação ambiental, perturbação da fauna ou conflitos com as atividades tradicionais.
A participação das comunidades locais poderá estimular oportunidades relacionadas a serviços turísticos, condução de visitantes e valorização da cultura pesqueira.
A implantação dessas atividades dependerá de planejamento, regulamentação e mecanismos de acompanhamento ambiental.
A denominação da nova unidade de conservação também destaca a relação histórica das comunidades com o território.
Segundo o governo estadual, Urupirá é uma palavra de origem indígena associada à atual Ilha das Palmas.
A expressão remete à ideia de “cesto do peixe”, referência à identidade pesqueira e à utilização tradicional dos recursos marinhos da região.
A escolha do nome busca preservar elementos da memória cultural local e reconhecer a importância das populações que historicamente construíram sua relação com o litoral.
Ao integrar biodiversidade, atividades econômicas tradicionais e patrimônio cultural, a Reserva Marinha Urupirá representa uma iniciativa de conservação que procura equilibrar desenvolvimento e proteção ambiental.
O próximo desafio será transformar as diretrizes de criação em ações efetivas de gestão, fiscalização, pesquisa e participação comunitária, garantindo que a unidade contribua de forma duradoura para a preservação dos ecossistemas do litoral fluminense.
Unidade de conservação: Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Marinha Urupirá
Localização: Zona oeste do Rio de Janeiro, entre a Ilhota do Frade, em Barra de Guaratiba, e a Pedra do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes.
Área protegida: Aproximadamente 3 mil hectares.
Criação: Decreto Estadual nº 50.530, de 15 de outubro de 2026.
Administração: Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
Categoria: Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS).
Objetivos: Conservação da biodiversidade, proteção de espécies ameaçadas, valorização da pesca artesanal e desenvolvimento do turismo sustentável.
Atividades previstas: Monitoramento ambiental, pesquisas científicas, educação ambiental, fiscalização, participação comunitária e organização da visitação.
Informações oficiais: Instituto Estadual do Ambiente
Legislação: Decreto Estadual nº 50.530/2026
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